7 de março de 2012

Ensinando e Aprendendo - na Europa


Mais um post antigo da Guitar Player


Prometi no blog anterior contar como foi o European Summer Camp, que aconteceu na Itália, em agosto. Cursos intensivos de várias modalidades em lugares com incríveis belezas naturais e festivais gigantescos a céu aberto são sempre as grandes atrações do Velho Continente antes que o sol, que tem data certa para partir, suma de uma vez e a temperatura despenque para o negativo e enclausure as pessoas em suas casas. Há dois anos, participei de um curso de verão com Mattias “IA” Eklundh, à beira de um lago nas florestas vizinhas a Estocolmo, Suécia. Agora, neste verão europeu, ao lado de Allan Holdsworth e Richard Hallebeek, estive no European Summer Camp na Sicília, Itália. Foram quatro dias nos quais cada guitarrista ministrou uma aula de duas horas por dia, totalizando 24 horas de informação intensa.

O cenário escolhido foi o primeiro grande atrativo do curso. Siracusa é uma cidade histórica na ilha da Sicília. Tem cerca de 2.700 anos e já foi uma das cidades mais importantes do Mediterrâneo, fundada pelos gregos e depois tomada pelos romanos. Foi ali que Arquimedes, de dentro da banheira da sua casa, gritou o seu famoso “Eureca!” e saiu correndo nu pelas ruas. Um lugar de arquitetura única, praias paradisíacas às margens do mar Mediterrâneo e sol de 40 graus. Encantos que, felizmente, não foram suficientes para desconcentrar o grupo de guitarristas que lá estiveram – nós nos mantivemos focados inteiramente no que tínhamos a dizer.

Após as, para mim, já tão familiares horas de check-ins, revistas de segurança, voos, escalas e van, cheguei à maravilhosa cidade vindo de Helsinque, Finlândia. Holdsworth e Hallebeek já estavam no hotel à minha espera e fomos direto apreciar a culinária mediterrânea na noite da chegada em Siracusa.

O dia seguinte seria de passagem de som e a primeira aula. Richard, por já ser professor na Universidade de Amsterdã, trouxe um material completo e superdidático. Eu também preparei uma apostila com diversos assuntos, mas que não segui à risca, pois queria deixar a coisa fluir de acordo com o nível dos alunos. O Allan já foi diferente e inusitado. Com suas décadas de experiencia musical, ele sempre foi avesso a ministrar aulas ou cursos. Holdsworth acredita em sua música e quer apenas tocar – não está preocupado em teorizar ou explicar nota por nota o que sai de sua cabeça.

Obviamente, presenciei suas aulas e as conversas ficavam no filosófico e nada muito prático. Ele não tinha playback algum e, convenhamos, falar e responder perguntas sem ter nada preparado ou algo para tocar ao longo de duas horas é muito difícil. Por isso, no segundo dia, Richard e eu fomos convidados por ele para criar algumas atmosferas para ele poder improvisar. Nada planejado. Eu tocava algumas sequencias de acordes, enquanto ele ouvia e derramava seu talento e concepção avançada. Alguns vídeos estão na internet e mostram um pouco desse momento, apesar de ter sido proibido filmar o evento.

No terceiro dia do curso, Allan comemorou seu aniversário de 65 anos e fizemos uma grande festa para ele. Sempre no melhor estilo inglês, de humor sarcástico e impiedoso, Holdsworth zombava da situação, enquanto os alunos e eu, é claro, reverenciávamos o mestre. Foi uma oportunidade única poder comemorar com ele seu aniversário e entrar madrugada adentro trocando ideias musicais e ouvindo frases da voz da experiência.

O quarto e último dia teve mais aulas, a entrega de diplomas e despedidas. Foram momentos intensos, nos quais fui para ensinar e acabei aprendendo muito. Com o tempo e a maturidade, percebemos cada vez mais que é a convivência com outros músicos que nos mostra como eles tocam. Explicações de como compõem ou por que tocam determinadas escalas, frases e ritmos ou por que aplicam certos conceitos musicais em seus trabalhos, isso tudo nem sempre é possível colocar em apostilas. Tudo está explicado na forma como a pessoa age nas situações diversas da vida, no seu jeito de ser, falar e interagir com as pessoas. Somos o que tocamos, tocamos o que somos.

14 de novembro de 2011

Sobre o Rock in Rio- Guitar Player


NO FINAL, TUDO VAI DAR CERTO. SERÁ?

- “Gringo maldito, cai fora que estamos no Rio de Janeiro. Aqui gringo não tem moral. Isso aqui é Brasil!” Pancadaria cinematográfica, objetos voando pelo ambiente. De um lado, dois alemães da empresa de iluminação; do outro, todos os cozinheiros e seguranças do restaurante dos artistas e da produção, que abriu 20 minutos atrasado.

- “Vocês estão indo para o palco? Estou aqui esperando minha van há duas horas, mas ninguém sabe de nada. Posso ir com vocês? Preciso programar a luz do show de hoje à noite do Slipknot”. “Sorte a sua que estamos indo agora. A nossa chegou só meia hora atrasada. Melhor que o Lemmy (Motörhead), que esqueceram no aeroporto ontem...”

- “A mesa que colocaram para o P.A. do Angra não está cabeada. Precisamos de algumas horas, mas a passagem de som é só de uma hora”.

- “Não adianta apressar, pois só há uma mesa de monitoração para todas as bandas, e o responsável é português e a comunicação está complicada. Está todo mundo batendo cabeça”.

- “Havia um representante da empresa do P.A. mexendo no equipamento durante o show. Acho que foi por isso que metade do som desligou e não tinha frequência média. Fomos obrigados a ligar em mono para o show do Sepultura não ficar tão ruim quanto o de vocês”.

Foi ao mesmo tempo a maior alegria e a maior decepção estar no Rock in Rio 2011. É inexplicável a sensação de tocar para tanta gente em um festival histórico, mas contar com uma produção à altura de um festival de colégio – ah... exceto a iluminação da cidade do rock, que foi um espetáculo à parte, pois todos os técnicos eram vindos de fora e eles não aceitam um minuto de atraso sequer, nem mesmo no almoço.

O termo em inglês que não consta no dicionário de uma boa produção é “compromise”. Significa consílio, meio-termo, concessão, acordo. Uma produção em excelência é aquela na qual não existe meio-termo para os problemas. Resolve-se e pronto. É inaceitável o “quase bom”: ou é excelente ou não serve.

Esse parâmetro de excelência é quase impossível em algumas situações e temos sempre de brigar, passar por chatos ou arrogantes. Se for no Brasil, a coisa complica ainda mais, porque não temos esse pensamento impresso em nossa genética . É engraçado perceber a nossa reação perante um “no compromise” gringo – acontece uma certa obediência e sensação de que o sujeito deve saber o que está falando. De brasileiro para brasileiro, a coisa é diferente. Espera-se o concílio, o “jeitinho”, o “tudo vai dar certo no final”. E se não der? Não deu para o Angra no Rock in Rio.

Aproveito para lembrar duas frases do guru moderno que, infelizmente, se foi em outubro:

“Meu trabalho não é agradar as pessoas. Meu trabalho é pegar essas grandes pessoas que temos, exigir o máximo delas e torná-las ainda melhores”.

“Seja uma referência de qualidade. Algumas pessoas não estão acostumadas a um ambiente em que se espera excelência.” – Steve Jobs



10 de novembro de 2011

Kiko Loureiro in Manila by Francis Brew Reyes




Kiko Loureiro of Angra recently did a guitar workshop for Laney amps and JB Music Philippines. To say that people were blown away is an understatement… while he is known for being a metal guitar hero, this is a guy who can, and did, play many styles of music during the two hour showcase. Sweeped arpeggios, two-handed playing, precision-picking, hybrid picking… you name it, he nails it. high speed metal runs? sure! then… he launches into long complex jazz lines, Joe Pass-style solo chordal guitar… and there is a percussiveness to his playing that reveals his Brazilian heritage. even when he plays legato, every note just pops out. to be frank, i got sick of shred guitar years ago… and then this guy comes along and proves that you can shred and be tasteful… and really musical. He makes everything look easy. his playing sure lit a fire that will be good for my own playing :)


Scary guitarist… and i was to join him and the JB Music peeps for dinner. I was anxious. He looked tired after the workshop (he also came from Indonesia, Taiwan, and Singapore) and might not be in the best of moods, although he was always congenial. he did seem nice enough while answering questions during the workshop but what if he snaps?


On the way to dinner, he asked socio-cultural questions; he noticed that most of us have Spanish surnames. He is genuinely curious about cultural stuff and Niña and I briefed him on Philippine history… and how unfortunate that what he was looking for (indigenous music) was difficult to find at that hour. “I guess it’s the same anywhere in the world, ” he lamented, “You have to go to a ‘tourist place’ to experience it. Not in the major cities…” He wasn’t much interested in hitting the bars or anything of that nature… he wanted to experience local culture. (We ended up watching a midget oil wrestling match in P. Burgos after dinner albeit reluctantly… ;p)


We had dinner at Casa Armas in Podium and there was little talk about guitar or music. The topics revolved around geography and it’s effect on the human psyche. i pointed this out and he said, “Ahh, talking about guitar…so boring!” He smiled and said, “It’s more interesting talking about other things… what’s the population in the Philippines? is it 94 million?” We talked about the symbolism of the 7 billionth baby… Niña asked him about a city in Finland (he is based there) and he elaborated on living in Europe compared to Brazil. when he did talk about music, he mentioned meeting Allan Holdsworth and explained, “My wife, she doesn’t know much the music of Allan, so i had her listen to his stuff. And she said ‘His harmonies are European.’ You know, like ECM? but he is based in California, you know it’s a different environment…and Allan said that Joe Zawinul, you know, from Weather Report? (i nod) said the same thing.” After dinner, Mr Joel Fernando of JB Music took us to Martini’s for a couple drinks, watching Joniver Robles. Niña and Loureiro talked about photography between songs.


Kris and MJ from JB Music promised him a tour in Intramuros before heading for the airport; they also promised to get him a souvenir… the man in a barrel with a spring-mounted penis. He respectfully declined and said, “No, no, it’s okay… we also have that in Brazil.” Fortunately within Intramuros, there is a Mindanao-styled house and a bahay kubo: proper examples of Philippine culture and architecture. (i made some dick jokes during the workshop; and between that and the man-in-the-barrel, that was culturally redeeming LOL) Between stops, he noticed something. “I like the uniforms of the guards” he said, referring to the Intramuros guards. Smiling, he continued “You know, Brazil was also briefly under the Spanish, and these uniforms… it’s strange to know i am in a very different part of the world but i see something familiar. similarities…”


The kalesa driver, Boyet (with his horse Rambo), was our tour guide; he pointed out the DOLE office. the door was ajar, and we saw a guy taking a nap on a monobloc. Loureiro commented, “Department of Labor… that guy is sleeping! that is not good.” We all laughed. We also rode a jeepney that took us near Lagusnilad and got another one back to Intramuros. He got a real kick out of that, happy to have experienced something truly Filipino :) We were about to enter Fort Santiago, but, conscious of the time and hungry, we opted to have a late lunch. Nevertheless, he asked about the significance of the place, and i briefly told him about Jose Rizal. We had lunch at the Aristocrat near Malate Church; a waiter named Joel recognized me, and after getting our orders, asked me if perchance i knew any Malmsteen licks. He didn’t know Kiko or Angra, so i explained who the guitar legend who just ordered grilled squid from him is. we gave him an autographed Kiko Loureiro cd which i’m sure, by now, he’s enjoying immensely. And hopefully, he’s now checking out more than Malmsteen licks… :)


On the way to the airport, we finally talked about music. i mentioned that i love Pat Metheny and he said, “In Brazil in the seventies, there was a movement, a club…i forget the name… but it had Milton Nascimento, Toninho Horta, all these guys, and they influenced Pat. If you like Pat, you’ll hear better where he’s coming from.” (i wiki’d it and he’s referring to Clube Da Esquina) i mentioned how i have a photo with Metheny that, unfortunately, was out-of-focus. he then said excitedly, “Oh, but Photoshop now has this thing where you can recover the focus!”


We drop him off at NAIA 2 and he pulls out his passport. I inquired about his ticket and he said, “Oh i didn’t print it out. we’re trying to save paper, the environment, and we get our tickets on email and what do we do? we print it out. on paper.”


i suppose i was expecting this metal guitar hero to have the predictable rockstar behavior, looking for the predictable rockstar indulgences. Instead, we met an genuinely intelligent, open-minded and conscientious dude… who just happens to be a fantastic musician :)

13 de outubro de 2011

EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE.


EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE

Não sei ao certo como o inconsciente coletivo analisado por Carl Jung atua em relação à música. Os arquétipos, os traços que povoam o nosso inconsciente e as imagens e símbolos jungianos podem ser musicais, também. Deixemos a profundidade do assunto aos psicólogos, mas a percepção de que existem lugares comuns a todos e lugares únicos dentro de nós é importante em nossa formação.

Consonâncias e dissonâncias colocadas em certas sequências agradam a muitos e nos conectam a um mesmo ponto. Alguns artistas dominam isso ao longo da carreira, encontram o ponto de equilíbrio entre a erudição, as surpresas e os lugares de conforto e, assim, criam canções que sobrevivem ao longo dos anos. Outros descobrem a chave para entrar nesse inconsciente coletivo uma vez na vida e depois não a encontram mais, pois essa descoberta nem sempre é algo claro e racional.

Estou aqui em Siracusa, Sicília, sul da Itália, ao lado do incrível Allan Holdsworth, guitarrista que influenciou gerações devido a sua expressividade singular e enigmática forma de tocar. Junto com o guitarrista holandês Richard Hallebeek, nós três iremos lecionar em um campus de verão.

Esse contato próximo com Holdsworth me deixou intrigado com a questão da identidade. Ele é um exemplo de ser não convencional. Conversamos muito sobre o assunto, mas ele, reticente, diz não saber explicar o porquê e de onde nascem as ideias. Se a música é algo etéreo, porque deveria haver uma explicação formal e científica? Podemos encara-lá apenas como sensações. Para criar a tal identidade, devemos encontrar o equilíbrio entre os lugares comuns e os lugares únicos que escondem- se dentro de nós. Como fazer para achar o ponto que agrade a você e aos outros, o que é consonante ou dissonante para você ou para os outros. Allan encontrou sua forma, que é algo totalmente peculiar, de beleza estranha, e transmite sensações e caminhos jamais visitados pelo nosso cérebro, mas que, de alguma forma, está lá no dele e Holdsworth, magistralmente, consegue transportá-los para sua música e, consequentemente, para nós. Nossa formação como músicos deve estar baseada principalmente na preocupação em moldar uma identidade. Desde o começo, o ideal seria que uma personalidade própria fosse o foco principal. Devemos descobrir qual peso nós damos às dicotomias com que nos deparamos enquanto músicos: intuitivo versus racional, consonante versus dissonante, lugares comuns versus o inusitado. Descobrir o que nos agrada primordialmente, o que imaginamos ser, o que reflete nossa vontade artística. Esses pontos são fundamentais para nos direcionar a uma identidade própria. A música coletiva de um povo, a música étnica popular do nosso país, também deve ter um papel essencial nessa formação de personalidade. É nela que sua origem será impressa. Se a música é um universo, é fundamental que sua localização seja ressaltada.

Postas todas essas variantes na mesa, a sua conexão com a música será cada vez mais verdadeira e pura. A arte que está dentro de você será nada mais que o reflexo do que você é – seu consciente, inconsciente pessoal e coletivo.

Kiko Loureiro

Matéria da Revista Guitar Player

11 de outubro de 2011

EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE.

EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE

Não sei ao certo como o inconsciente coletivo analisado por Carl Jung atua em relação à música. Os arquétipos, os traços que povoam o nosso inconsciente e as imagens e símbolos jungianos podem ser musicais, também. Deixemos a profundidade do assunto aos psicólogos, mas a percepção de que existem lugares comuns a todos e lugares únicos dentro de nós é importante em nossa formação.

Consonâncias e dissonâncias colocadas em certas sequências agradam a muitos e nos conectam a um mesmo ponto. Alguns artistas dominam isso ao longo da carreira, encontram o ponto de equilíbrio entre a erudição, as surpresas e os lugares de conforto e, assim, criam canções que sobrevivem ao longo dos anos. Outros descobrem a chave para entrar nesse inconsciente coletivo uma vez na vida e depois não a encontram mais, pois essa descoberta nem sempre é algo claro e racional.

Estou aqui em Siracusa, Sicília, sul da Itália, ao lado do incrível Allan Holdsworth, guitarrista que influenciou gerações devido a sua expressividade singular e enigmática forma de tocar. Junto com o guitarrista holandês Richard Hallebeek, nós três iremos lecionar em um campus de verão.

Esse contato próximo com Holdsworth me deixou intrigado com a questão da identidade. Ele é um exemplo de ser não convencional. Conversamos muito sobre o assunto, mas ele, reticente, diz não saber explicar o porquê e de onde nascem as ideias. Se a música é algo etéreo, porque deveria haver uma explicação formal e científica? Podemos encara-lá apenas como sensações. Para criar a tal identidade, devemos encontrar o equilíbrio entre os lugares comuns e os lugares únicos que escondem- se dentro de nós. Como fazer para achar o ponto que agrade a você e aos outros, o que é consonante ou dissonante para você ou para os outros. Allan encontrou sua forma, que é algo totalmente peculiar, de beleza estranha, e transmite sensações e caminhos jamais visitados pelo nosso cérebro, mas que, de alguma forma, está lá no dele e Holdsworth, magistralmente, consegue transportá-los para sua música e, consequentemente, para nós. Nossa formação como músicos deve estar baseada principalmente na preocupação em moldar uma identidade. Desde o começo, o ideal seria que uma personalidade própria fosse o foco principal. Devemos descobrir qual peso nós damos às dicotomias com que nos deparamos enquanto músicos: intuitivo versus racional, consonante versus dissonante, lugares comuns versus o inusitado. Descobrir o que nos agrada primordialmente, o que imaginamos ser, o que reflete nossa vontade artística. Esses pontos são fundamentais para nos direcionar a uma identidade própria. A música coletiva de um povo, a música étnica popular do nosso país, também deve ter um papel essencial nessa formação de personalidade. É nela que sua origem será impressa. Se a música é um universo, é fundamental que sua localização seja ressaltada.

Postas todas essas variantes na mesa, a sua conexão com a música será cada vez mais verdadeira e pura. A arte que está dentro de você será nada mais que o reflexo do que você é – seu consciente, inconsciente pessoal e coletivo.

Kiko Loureiro

Matéria da Revista Guitar Player



3 de outubro de 2011

A little more about Jason Becker...



Hello Folks

Here I´m posting once more a note to promote a great event, a wonderful initiative to help an outstanding musician who needs our support: the guitarist Jason Becker.

I ask all musicians who might read this note to please, take part on this great campaign to help raising money for Jason´s medical care, which is extremely expensive in the USA. Several events to raise money for Jason have been happening all over the world and I am very proud to be part of it on the next one that will take place in Nederlands, at Patronaat, in Harlen, on the 13th o November, 2011, together with some other great guitar names, respected all over the world.

To promote the event and the important idea of helping Jason, we are asking all musicians possible to change their profile pictures on Facebook to the banner of the event - you can get it on the previews post here in my blog or at http://jasonbeckerfest.com/index.php - until we´ve got a thousand banners or more spread all over.

Even if you don´t live in Nederlands, just support for this great happening in the name of a great human being who needs us.

Read more about the event and for those who can, purchase your tickets also: http://jasonbeckerfest.com/index.php

I thank you all for the help

Kiko Loureiro



2 de outubro de 2011

Jason Becker


Let's help Jason Becker all together!!! It's quite long but I'd like you could read it...

Hi everybody. My name is Guglielmo Malusardi from Milano Italia. Some of you already know me, some not, so I'll shortly introduce myself. I'm a huge guitar fan, a music journalist for Axe Magazine ( we dedicated a cover to Jason in occasion of my interview with him last year). And next month we have a good surprise for you, having Hedras in our pages interviewed by miself.

I'm organizing the Milan Guitar Day for seven years, together with Massimo Sangiorgi and I'm a presence on stage with mike in hand, in Noches de Guitarra in Spain and Ziua Chitarelor in Romania...Last but not absolutely least, I'm a proud member of the Shred Gang, together with Kris Claerhout, Ron Coolen and Laurie Monk setting up this amazing europan edition of Jason Becker Not Dead Yet, november the 13th at the Patronaat, Harlem, Holland.

In order to promote massively the selling ticket and the resonance of the event all around the world, I started a couple of days ago to change my profile image with the poster of the NDY gig, suggesting the SG members to do the same as they happily do. Then I started a world butterfly effect, contacting directly musicians ( first the ones on stage in NDY gig) from Italy and abroad, asking them to do the same and then the whole number of my contacts. Target at least one million of posters of the gig in one million fb profile pics. The butterfly Becker effect is started!!!

I dreamt to convert this idea in a huge topic, until the point that it'll break the fb walls and will reach tv news and press all around the world...

The whole very important ASL cause, will have a huge benefit as well .

It's absolutely useless to invite you to do the same in terms of seconds after read my words, and push the entire number of your contacts outside this blog, to do the same.

First step!!! One million posters!!!

"Yn grifach gyda'n gylidd "as the welch Ovspreys rugby players say ( Together we are stronger:)!

All for Jason, all with Jason!

I strongly hug you all

Guglielmo Malusardi di Benvenuto.

12 de setembro de 2011

A Dúvida


A Dúvida

Ser ou não ser músico? Temos a tendência de pensar que essa dúvida mora apenas em nossa baixa autoestima latino- americana e que, em terras além-mar, ser músico é estar no éden. Como sugestão para esta coluna, recebo constantemente o questionamento de como vencer em nosso país Pindorama com a profissão músico: Vale a pena cursar uma faculdade? Qual é a real perspectiva do mercado de trabalho? É possível se sustentar sendo músico? Além de muitos outros questionamentos relevantes. Porém, não tenho respostas. Para falar a verdade, nessa área, também sou só dúvidas.

Questionar é fundamental. Acredito que seja um ótimo sinal, afinal, a certeza é sempre burra – aprendemos as verdadeiras lições ao questionar e ao errar. Recentemente, um dos maiores ícones pop desde os anos 1980, cujo sucesso pode ser comparado ao de Madonna e Michael Jackson, indicado então por Miles Davis como o futuro da música americana, que trocou sua alcunha por um símbolo meio hermafrodita, tornou-se testemunha de Jeová e, hoje, voltou a usar seu nome original e ainda lota estádios pelo mundo afora, Prince revelou em uma entrevista que anda um pouco confuso com sua profissão de músico. Declarou que não gravará mais enquanto não for regularizada a “terra sem lei” da distribuição e venda de música no mundo. Com razão, ele questiona que o músico não é mais pago pelo seu ofício e quem ganha são as operadoras de celulares, Apple e Google. Já vimos esse filme quando o Metallica tirou o terno do fundo do armário e foi brigar na justiça contra o Napster. Com a perspectiva de hoje, esse fato de poucos anos atrás tem cheiro de naftalina.

A dúvida se é possível viver da música e se somos pagos pelo que achamos que valemos é pertinente, mas também permanente e insolúvel. Assim foi e assim sempre será, pois o quinhão quem leva é a gravadora, o dono do bar, o produtor executivo, o iTunes e quem recolhe o dinheirinho suado dos fãs de música. Para nós sempre ficará o dízimo, e isso não tem nacionalidade, acontece dentro e fora do país.

Pode até não ter solução, mas nunca a criação musical foi abortada por isso. Portanto, vamos deixar nossas vontades falarem mais alto e nos jogar com tudo nessa profissão. Com o tempo, aprendemos os mecanismos burocráticos e menos lúdicos para não deixar a balança ser tão desequilibrada e conquistar o pagamento digno de quem faz seu ofício bem feito.

Como disse Bob Dylan: “Sucesso é levantar de manhã, ir para cama à noite e, no tempo entre os dois, fazer o que gosta”. Então, por que a dúvida?

3 de setembro de 2011

GUITARRISTA TIPO EXPORTAÇÃO - Made in Brazil



GUITARRISTA TIPO EXPORTAÇÃO - Made in Brazil

A música brasileira sempre foi e será prestigiada no mundo inteiro. É um valor adquirido graças aos grandes compositores e artistas da nossa história. Originados da miscelânea cultural que é o Brasil, eles formaram algo original e atrativo, admirado em todos os cantos do planeta.

Ao lado do futebol, a música brasileira é o nosso maior patrimônio. Mesmo que a imagem internacional do Brasil seja maculada pelas nossas mazelas – da senzala às favelas, da polícia aos políticos, e tantos outros problemas –, a música brasileira permanece intacta, surpreendente, rica e versátil, amada por todas as nacionalidades.

Na China, encontra-se uma atmosfera acolhedora, aberta a novas culturas e com a sede de participar das facilidades, do conforto e da tecnologia do nosso lado do planeta. Ao perceber isso, o mundo todo quer hastear sua bandeira para demarcar território e selar um futuro promissor em uma terra na qual quem se posicionar bem colherá os frutos. Aqui na China, é como se não existisse passado, não há referência para com a história do rock ou da guitarra. Uma página em branco para quem quiser escrever. Por exemplo, o encarregado das relações artísticas da maior importadora daqui viu uma guitarra pela primeira vez na vida aos 24 anos de idade e hoje, aos 31, acompanha artistas e participa do marketing de produtos.

Para ele, Jimi Hendrix e John Petrucci têm o mesmo peso histórico. Assim, nós, guitarristas, também podemos nos posicionar perante essa abertura e, com ela, aprender que o mundo é enorme e repleto de oportunidades.

A busca de outros portos sempre esteve à nossa disposição. Tudo é uma questão de atitude. Temos de abrir caminho, ter o posicionamento expansivo que existe desde os tempos de Cabral e Vasco da Gama, mas que acho pouco explorado por nós. Quem se beneficia do nosso legado são os que possuem um som genuinamente considerado brasileiro em eventos da chamada “world music” ou quem toca para brasileiros em terra estrangeira. Não é o suficiente, podemos mais.

Assim como muitas empresas de sucesso no Brasil não abrem os olhos para o mundo, mantendo seus produtos, websites e marketing em português, nós, músicos, também nos restringimos e olhamos apenas para o mercado nacional. Aqui na terra de Confúcio, encontrei russo, francês, alemão e mexicano aproveitando as oportunidades que surgem.

Uma carreira internacional não é privilégio de ninguém, é apenas uma visão mais global do que se faz. É a perspectiva do olhar – se está voltado para fora ou para dentro, se ultrapassa fronteiras e barreiras linguísticas ou não. A nossa música, a original e genuína, já abriu o caminho. Agora, é só uma questão de posicionamento e virtude de cada um.

Na China dos arranha-céus, o sábio chinês de outrora Lao Tsé não parece mais exercer tanta influência com seus provérbios taoístas de desprendimento e introspecção. Muito menos o comunismo de Mao Tsé-Tung. Então, por que esperamos?

22 de julho de 2011

GRAVAÇÕES: RESOLVENDO UMA INCÓGNITA

Tricolor desde criancinha, mas não muito praticante, fiquei orgulhoso de ser convidado para gravar a trilha sonora do documentário sobre o goleiro recordista Rogério Ceni, no estúdio Midas, em São Paulo. Eram cinco músicas curtas que, em uma tarde ao lado de Ricardo Confessori (bateria) e Felipe Andreoli (baixo), gravaríamos como power trio, ao vivo, como nos velhos tempos dos rolos de duas polegadas. Por questões sonoras, estéticas e, claro, pela questão do tempo, não teríamos a possibilidade de muitos overdubs. As músicas compostas pelo maestro Alexandre Guerra vieram todas via e-mail um dia antes da gravação – páginas e páginas de partituras com compassos esdrúxulos e melodias que dançavam entre o simples e o complexo. Para agradar o herói do Morumbi, referências a AC/DC e Dream Theater nos cinco belos temas.

Registrar sua própria música tem uma dinâmica completamente diferente de gravar composições alheias para finalidades diversas. Afinal, nunca se sabe qual o resultado final que o maestro imagina em sua cabeça, ensaios não ocorrem, não se conhecem os técnicos do estúdio e muitas vezes não se sabe a finalidade ou utilização daquela gravação.

Estar preparado para situações como essa é sempre uma incógnita. Como fazer para estar pronto para algo que não se sabe o que é? É como fazer um vestibular: as perguntas estão ali para serem respondidas em um determinado tempo, sem uma segunda oportunidade para, se necessário, mudar a primeira impressão. Pragmatismo puro. Situações como essas exigem um outro lado da nossa musicalidade. Não será o virtuosismo ou a habilidade extrema que conquistará o diretor musical – precisão, eficácia e simplicidade são as palavras de ordem. Executar o que é pedido e o que está na partitura e, aos poucos, colocar o seu toque pessoal é a direção certa para, assim, alcançar uma linguagem acessível e rigorosa ao mesmo tempo.

Nós, guitarristas, temos de estar preparados para esse tipo de trabalho, por mais que não nos preocupemos com ele quando estudamos. Pensar em conhecer um pouco de cada estilo e soar bem em todos eles, mesmo que de forma simples, é o caminho correto. Além disso, a rapidez em criar soluções para os arranjos é fundamental. Sendo assim, a única escola é a experiência, as horas de voo no hermético mundo dos estúdios.

Outra coisa que joga sempre a favor é a gama de sons e timbres que você pode oferecer. Anos atrás, fui tocar em um álbum de Guilherme Arantes e, mesmo sem saber o que gravaria, cheguei com mais de cinco guitarras e violões e amplificadores diversos.

Quanto mais recursos – tanto de timbres como de conhecimento e habilidade musical – você puder proporcionar a um determinado trabalho, melhor. Mas você deve saber como utilizar essas ferramentas em prol da gravação em si, desprender-se de qualquer tipo de vaidade e jogar para a equipe, fazer o que o “técnico” lhe pede. Ao atuar com profissionalismo e preparo, o resultado final terá mais brilho, consistência e, também, o seu toque pessoal, afinal, será um eterno registro de sua persona musical.

12 de julho de 2011

22 de junho de 2011


COM BRILHO NOS OLHOS

Em meio à absoluta maioria masculina de cabeludos, tatuados e barbudos, com suas correntes e piercings, lá estava uma loira reluzente de roupa de couro, simpatia no rosto e olhos vidrados no que eu tocava. Pode não parecer muito sincero de minha parte, mas ela me chamou a atenção não pela cor do batom, mas, sim, por conhecer todas as minhas músicas de cor e balançar o pescoço com empolgação singular.

Nos corredores da NAMM, feira de instrumentos na Califórnia, em janeiro deste ano, noto sua presença mais uma vez e minha curiosidade se torna ainda mais aguçada pelo fato de ela estar com um laptop aberto em mãos, com a imagem do ícone virtuoso dos anos 1980 Jason Becker. Não me contenho em me aproximar para tentar entender o propósito da loira com aquele computador em punhos, quando percebo que o próprio Becker está ali, vivo, porém estático, utilizando apenas os movimentos da íris dos olhos para me dizer: “Oi, Kiko, tudo bem?” Os olhos continuam a se mover e um interlocutor do outro lado do Skype traduz para meus ouvidos belas palavras de elogios e real conhecimento do meu trabalho. Sou envolvido por uma sensação incrível de empatia e agradecimento naquele contato, mesmo que apenas olho a olho, originada por alguém que já foi uma referência musical para mim e hoje é uma referência humana para todos que conhecem sua história.

Prodígio, Jason Becker gravou seu primeiro álbum aos 16 anos e, com seu incrível talento, logo alcançou o status de um dos grandes guitarristas do planeta. Eu tinha 15 anos e ele me fez repensar meu estudo, pois percebi que não conseguiria chegar de uma hora para outra àquele altíssimo nível musical. Impressione-se: ouça seu disco-solo Perpetual Burn e os trabalhos em dupla com Marty Friedman. Escute também o álbum de David Lee Roth A Little Ain’t Enough, que ajudou a levar Becker ao estrelato.

Infelizmente, o destino foi implacável com Jason. Ele foi acometido por uma gravíssima doença neurodegenerativa (esclerose lateral amiotrófica), que, aos poucos, retirou sua habilidade de andar, depois de tocar e, por fim, cessou todos os seus movimentos, mas nunca conseguiu subtrair o brilho de seus olhos e a música que existe dentro dele. Becker ficou impossibilitado de empunhar uma guitarra e subir aos palcos, mas não de continuar nos alimentando com sua música. Ele nos impressiona até hoje com suas obras do passado e com suas composições do presente, escritas por meio do movimento da íris.

Quando buscamos nossa musicalidade de forma tão intensa, podemos alcançar um grau sublime de energia musical – fluida, livre e extravasante – que será parte da nossa essência como pessoa. Jason é o exemplo cristalino disso.

No momento, a loira (Kristin Bloom, namorada de Becker), familiares e muitos fãs seguem fazendo homenagens a ele, como o evento Jason Is Not Dead Yet, o documentário Perpetual Burn: The Story of Jason Becker (www.jasonbeckermovie.com) e, aqui no Brasil, o site www.guitarclinic.com.br, o qual oferece a coletânea Heart of a Hero (organizada por Rafael Nery), que recebe donativos para o tratamento do guitarrista.

5 de maio de 2011



LE TEMPS N’EXIST PAS

A discussão é relevante. Existe ou não a linha do tempo? Outras dimensões, dilatação do tempo, relatividade, teoria das cordas... Física moderna, filosofia ou religião, pouco importa onde encontra-se a resposta. O fato é que uma turnê do Angra na Europa, mais uma entre as incontáveis ao longo de 16 anos, excita pensamentos dessa natureza.

Acordo, saio do tour bus já estacionado na frente da casa de show e logo me deparo com um poster do Angra no L’Olympic, em Nantes, França, anunciando a nossa chegada. Sorrio, ainda sonolento, pois os dizeres sinalizam espaço-tempo. Adentro os corredores forrados com outros pôsteres e vejo mais uma vez o Angra no L’Olympic, em 17 de janeiro 1999. Ao meu redor, reconheço o local e, agora, talvez já em outra dimensão, reparo nos outros pôsteres com nomes de bandas que surgiram e se foram meteoricamente, outras que cresceram e ainda estão na ativa e também aquelas que se separaram depois de uma longa estrada, deixando boas memórias. Uma sensação de olhar lápides em um cemitério, com nomes de família e datas que nos transportam a outros tempos.

Em Lyon, recém-chegado ao bar da casa de show, peço um café ao cozinheiro. Simpaticamente, ele responde que preparou o café mais forte desta vez, pois antes eu havia comentado que o café brasileiro era melhor. Antes quando? Em 1996 ou em 2006? Vai ver o cozinheiro veio da outra dimensão “jusqu’à côte” para me agradar. Ele devia estar sempre lá, “just’ao lado”, a observar. Acabei derrubando o café sobre o baixista Felipe Andreoli.

Em Lille, sob os olhos atentos de uma figura familiar posicionada na primeira fila da plateia, toco os primeiros acordes de Carolina IV, música que nos fez conhecidos na França. Essa peça tem um pouco de tudo – ritmos afro-brasileiros, guitarras pesadas inglesas, melodias sofisticadas francesas e coros em português – e é apreciada por olhos familiares, nada muito diferente de outros momentos, há quatro, dez ou 16 anos. Talvez até mesmo nada muito diferente das festas exóticas, com índios vestidos à la Luís XIV, feitas para os nobres europeus no século 17, saciando a sede do colonizador pelo diferente. A figura da primeira fila me transporta mais uma vez para a dimensão vizinha. Reconheço a jaqueta de couro, que brilha como nova, com a pintura do disco Angels Cry nas costas, divinamente preparada por ele mesmo para o nosso debute europeu, em 1995. Porém, noto o cavanhaque grisalho.

O D mixolídio com quarta aumentada de Carolina IV, a jaqueta, o cavanhaque, o poster e o café bem passado são mais rápidos que a luz. Transportam-me ao passado-futuro em um passeio real e atemporal.

O tempo, sem forças, não existe mais, curva-se para dentro e torna-se um simples ponto à mercê apenas da minha universalmente infinita paixão pela música.

15 de abril de 2011


“TRITURAR” É PRECISO, CRIAR NÃO É PRECISO?

“Best in Shred”. Traduzindo: “O melhor em triturar”. Se preferirem, abrasileirando a expressão: o melhor em esmerilhar, detonar, “fritar” ou seja qual for o verbo para aqueles que solam na velocidade da luz, com sweeps, tappings e palhetadas insanas. Após o psicodelismo dos anos 1960, a técnica e solos viajantes dos 70, os virtuosos neoclássicos dos 80 e os desleixados grunges dos 90, fiquei muito curioso com a competição Best in Shred, em pleno início de 2011, no estado americano berço de emblemáticos guitar heroes, a Califórnia. Que tipo de guitarrista espetacular estaria nesta final triunfante, que reuniria os seis melhores e mais rápidos gatilhos da seis-cordas, escolhidos em disputas estaduais por todo o território americano?

Fiquei honrado com o convite para ser um dos jurados da disputa, ao lado de Andy Timmons, Herman Lee (DragonForce), John 5 (Marilyn Manson), George Lynch (Lynch Mob) e Frank Bello (Anthrax). No melhor estilo Ídolos, presenciaríamos as performances dos seis finalistas, daríamos notas, comentaríamos positivamente ou negativamente e, ao final, chegaríamos ao consenso do melhor “triturador” de cordas dos EUA.

O evento aconteceu na loja Sam Ash, uma das maiores dos EUA, com direito a tapete vermelho, palco, P.A., luzes, MC e tudo a que se tem direito em um espetáculo com toda a pompa americana. E o melhor: um prêmio de 20 mil dólares em equipamentos ao vencedor e o convite para tocar com Steve Vai em um de seus shows.

Ao lado de guitarristas (Frank Bello era o único baixista) extremamente técnicos, mas que nunca deixaram de lado a música e a paixão por uma bela composição, lá estava eu para julgar outros colegas de instrumento. Vale lembrar que as apresentações deveriam ser feitas sobre uma base de alguma música de Steve Vai.

Colocar a música em formato de competição é um conceito completamente errado, uma visão deturpada da função da arte, mas é uma forma de estimular o estudo e a busca de aprimoramento na guitarra.

Agora, veja como foi difícil escolher. O primeiro a subir no palco, um deficiente visual, tocou perfeitamente o tema de Vai, acertando os arpejos e slides pelo braço inteiro. O segundo se enrolou todo com sua pedaleira e, devido a pedidos, recebeu uma segunda chance, mas continuou se enrolando com a pedaleira, apesar da execução perfeita. O terceiro, mais novo de todos, não apenas tocou as notas de Vai como tinha a mesma guitarra, fazia os mesmos truques e as caras e bocas que só Vai é capaz de fazer. Um verdadeiro clone do astro, mas de cabelo “jogadinho” à la Justin Bieber. O quarto, também por volta dos 17 anos, com uma postura mais thrash metal, piercings e afins, também executou muito bem a música, mesmo que um pouco mais sujo. O quinto, um novaiorquino perto dos 40 anos e com a balança com certeza passando dos 100 quilos, tocou com perfeição. Empolgado com a molecada, jogou-se no chão e realizou um espetáculo à parte, que ninguém da plateia imaginaria em se tratando de uma pessoa tão volumosa. Tocou de sorriso aberto, mesmo quando seu sistema sem fio o trapaceou e comeu o sinal da guitarra por algumas vezes. O último, bem diferente dos outros, com uma pinta meio Slash meio Ben Harper, tocou com uma tranquilidade e sutileza únicas, e as notas estavam todas lá, as mesmas de Vai.

Nós, jurados, fomos para uma salinha discutir o ganhador. Como escolher entre seis músicos que executaram músicas exatamente como o original? Com muita dúvida, foi escolhido o novaiorquino, que conquistou a todos com sua simpatia e presença de espírito, mesmo com problemas técnicos. O segundo colocado foi o Slash/Ben Harper, por sua tranquilidade.

Durante as apresentações, fiquei esperando alguém que, além de “triturar” escalas e arpejos, criasse uma nova composição sobre a base de Vai. Todos se preocuparam com a imitação. Ninguém improvisou, compôs uma nova melodia, criou uma música a partir da base sugerida. É o que tentam nos ensinar na infância ao fazermos as redações em sala de aula. Sai na frente quem ousar e criar sobre o tema dado. A técnica faz parte do meio e não da mensagem em si. Quem soubesse disso naquela noite teria ganho por unanimidade.