27 de abril de 2013

A TERRA DA GUITARRA



Califórnia, sinônimo de sol e mar, glamour e riqueza, das dondocas de Bervely Hills aos latinos de Co
sta Mesa, lar do cinema, artes e música. Não há como duvidar que aqui é a terra da guitarra.
Eu me estabeleci por estas bandas do Pacífico por alguns meses, seguindo pequenas propostas de trabalho, mas também de coração aberto para o que der e vier. Já no meu voo de vinda, como não se pode duvidar que aqui é a meca da guitarra, encontrei na sala de embarque o mestre dos mestres da guitarra country: Albert Lee. O pouco que estudei de country em minha vida foi com suas videoaulas e métodos. Fãs do estilo sabem de quem estou falando. Só reparei em sua presença quando ouvi o chamado ao balcão da companhia aérea: “Mister Lee!”. Então, vi aquele senhor de cabelos de algodão, com dois (!?) celulares Nokia na mão (aqueles da época que celular não quebrava e a bateria durava mais de um dia), dirigir-se para resolver suas pendengas burocráticas de check-in. Sensacional! Percebi que estava indo para o lugar certo...
Apesar de ter caído muito na estrada nessa vida quarentenária, viajar para ficar por algum tempo em outro lugar sempre tem uma conotação diferente. Minha identidade como músico e artista e minha relação com a música é colocada em movimento. Um novo ambiente sempre traz alternativas, expectativas, sonhos e, claro, dúvidas e intimidações. Reavalia sua relação com a música e tudo o que foi feito anteriormente. Testa ao limite o que é possível mudar ou não. Não existe o preestabelecido ou a imagem e expectativas que outros têm. É o talento e posicionamento como profissional, e nada mais, que será a base êxito, esquecendo minha próprias limitações e expandindo a imagem que tenho de mim mesmo. É a energia livre do recomeço e quase como uma liberdade do pseudônimo, que tanto já foi usado por pintores japoneses de séculos passados, Fernando Pessoa ou jornalistas na época ditadura.
Seja qual for o novo ambiente – um país, um colégio, uma cidade –, ele o colocará à prova, reavaliará sua relação com a arte, seus pontos fortes e fracos. Afinal, não podemos seguir a vida jogando o mesmo jogo, caso contrário, ela se torna amorfa e insossa. É engraçado e ao mesmo tempo empolgante ter como vizinhos alguns dos meus heróis de adolescência e descobrir que estamos todos no mesmo barco – sair para uma conversa ou encontrar alguém no posto da gasolina.
Amanhã sigo para uma gravação na terra dos estúdios Burbank, ao lado de Hollywood, para uma faixa em um projeto junto com Billy Sheehan e Derek Sherinian (ex- Dream Theater), gravado pela lenda da produção Tom Fletcher (Bon Jovi, Toto, entre outros).


Temos sempre de acreditar na essência de nós mesmos, no que temos de melhor como sustento da nossa personalidade, e saber o que é flexível em nós mesmos para nos adequarmos às diferentes realidades que nos propusermos ao longo da vida. Qual será o seu próximo passo?

23 de dezembro de 2012

Os Limites do Branding. Guitar Player

 Os Limites do Branding


Os adversos aos estrangeirismos habituais que me perdoem, mas é difícil evitar: branding,marketing e advertising. Mestres no assunto, os norte-americanos devidamente impõem a terminologia que acatamos mas que nem sempre compreendemos bem. Seja uma marca gigante como Coca –Cola, ou mesmo nós guitarristas que almejamos uma carreira sólida devemos entender e utilizar estes conceitos.
O tópico deste blog me veio à cabeça quando vi a capa do novo álbum da cantora e pianista de jazz Diana Krall em um folheto de uma loja de departamentos sofisticada. Eu nem ouvi a música e nem sei o conceito do álbum, porém tive uma sensação estranha ao ver a capa. Com o “advertising” ali na minha frente, que deve fazer parte de uma campanha de “marketing” avassaladora da gravadora, ao meu ver, o “branding" deixou a desejar.
Longe de ser um perito no assunto, enxergo-o de forma leiga e simplificada, mas como minha avó já dizia: "Propaganda é a alma do negócio". Sei da importância e do cuidado que temos que ter em relação a estas três fundamentais palavrinhas da vida moderna.
Quando nos lançamos como artistas, somos o “brand” e criar a estratégia de valorização da própria marca, o chamado “branding, é fundamental. É basicamente desenvolver os aspectos de como as pessoas irão te ver, sentir e se conectar contigo. É o intangível que nos faz amar uma marca, comprar um produto e, no nosso caso, gostar, admirar e respeitar um artista.
É o encontro do que achamos que somos com o que os outros pensam que somos.
Depois de analisar isso, pode-se desenvolver uma imagem, logos, cores, atitude, forma de falar, de escrever, de se apresentar, de se expor na internet dentre outras coisas. Isso é o que constrói a relação com o público que você quer atingir. Transmitir algo que somos de maneira sustentada, consistente, adaptando-se às mudanças pessoais, e respeitando a forma de como queremos ser visto pelo público: eis a forma de estruturar o próprio branding
É recorrente no “music business” que alguns artistas tenham o ímpeto de ganhar novos públicos, novos mercados, fazer o “crossover” ( desculpem-me mais uma vez os Policarpos Quaresmas de plantão), isto é, cruzar a linha do seu nicho e alcançar novos admiradores.Bom quando é de forma analítica da marca , mas quando enxergam no sucesso “o céu é o limite”, podem perder-se no meio do caminho com atitudes que desagrade os fãs de carteirinha. É sempre um passo delicado e perigoso.

Agora é esperar para ver se a Diana será indicada mais uma vez ao Grammy como musicista de Jazz com seu visual de moça de Lupanário do Faroeste ou quem sabe o próximo passo será entrar no palco dançando estilo Beyoncé em um estádio lotado.

6 de dezembro de 2012

IronMan Tour


IRONMAN TOUR
Lembro-me que, desde pequeno, o pensamento coletivo de uma ignorante e falsa superioridade dos brasileiros para com os “hermanos sudamericanos”, simbolizado pela frase “la garantia soy yo”, esteve presente e imprimiu um olhar equivocado sobre os nossos vizinhos. Viajo há muitos anos por países da América Latina e faz tempo que perdi essa imagem difusa e, digamos, preconceituosa.
18 dias,15 apresentações. A rota foi Santiago (Chile), Lima (Peru), La Paz (Bolívia), Curitiba, Porto Alegre, Montevidéu (Uruguai), Buenos Aires ( Argentina), Brasília, São Paulo (EM&T), São Paulo (Stay Heavy), Medellín (Colômbia), Cidade da Guatemala (Guatemala), Manágua (Nicarágua), San José (Costa Rica) e Cidade do Panamá (Panamá).
IronMan foi o termo escolhido para nomear a turnê que testou ao limite minha capacidade de estar inteiro e bem disposto para cada apresentação, após noites sem dormir, voos intermináveis e irritantes filas de check-in.
Mucho Gusto”, “Bienvenido”, “Gracias, maestro” foram as palavras recorrentes nesta tour-de-force latino-americana, na qual fui tratado com muita simpatia, amizade e respeito. Temos muito a aprender com essas culturas vizinhas. Países que carregam uma história sociopolítica similar à do Brasil e sofreram com uma economia titubeante. Porém, agora, alguns deles resplandecem e mostram traços de qualidade de vida melhores que os nossos – nós é que estamos deitados eternamente em berço esplendido.
O frio seco do Chile umedecido pela Piscola, o refrigerante peruano Inca Kola (com sua cor amarela radiante e sabor xarope), o marear da altitude de 4.200 metros da Bolívia, beijo com barba áspera dos fãs argentinos, o chimarrão compartilhado pelos uruguaios, as “Shakiras” da Colômbia, a cultura maia da Guatemala, a propina “voluntária” da Nicarágua, a pura vida na Costa Rica, a quase Miami centro-americana do Panamá e, por fim, a inigualável sensação de viajar e tocar para os amigos no Brasil.
São dias que equivalem a meses. Viver intensamente e aproveitar cada novidade e descoberta. Melhor ainda, poder se apresentar todos os dias para pessoas e culturas diferentes.
Escrevo este texto na última noite da turnê, no Panamá, com céu estrelado e vista para o famoso canal. Sinto-me contente por ter levado minha música a todos esses cantos e para tantas pessoas. Como Machado de Assis escreveu: “As estrelas pareciam-lhe outras tantas notas musicais fixadas no céu à espera que alguém as fosse descolar; tempo viria em que o céu tinha de ficar vazio, mas então a terra seria uma constelação de partituras.”

3 de dezembro de 2012

Na Terra Do Sol Nascente


NA TERRA DO SOL NASCENTE
No outro lado do mundo, tão distante e diverso, está um lugar onde é possível sentir-se em casa, à vontade e querido. O Japão nos dá essa sensação de familiaridade e identificação, pelo menos para quem cresceu em São Paulo, em meio a viadutos, túneis, grandes avenidas e ao lado de tantos nisseis e sanseis. Em julho deste ano, tive o privilégio de realizar dois shows no Japão, em Tóquio e Osaka, além de entrevistas e promoções para o meu novo álbum, Sounds of Innocence.
Desta vez foi um pouco diferente das inúmeras outras ocasiões em que estive lá com o Angra ou para workshops. Foi minha primeira experiência como artista solo e isso deu um caráter para lá de especial e desafiador. O público japonês tem uma dedicação sem igual para com os artistas que amam, porém, para consegui-la, é necessário mostrar um trabalho que se alinhe à qualidade e perfeccionismo que imperam no dia a dia desse país. Tarefa nada fácil.
Com Felipe Andreoli no baixo e Marcelo Moreira na bateria, passamos por uma semana intensa de atividades, ótimos momentos musicais e inusitados choques culturais. A ansiedade de mostrar um trabalho inédito no Japão e a expectativa do público, que esgotou os ingressos meses antes da apresentação, serviram como impulso incrível para os ensaios e shows preparatórios que realizamos antes no Brasil.
Após a viagem interminável de meia volta no planeta, o primeiro dia em Osaka, ainda em adaptação ao fuso, serviu apenas para lutar até o limite contra a força natural do sono. Perambulei pela cidade de um calor e umidade amazônicos em um estado de zumbi sonâmbulo. No segundo dia, realizamos um ensaio e reunião com o diretor de palco para afinar os detalhes de equipamento, som e luz. Cada ponto foi passado antecipadamente para não haver surpresas desagradáveis no dia do show. No terceiro dia, data da primeira apresentação, com a energia reposta pelo tradicional Okonomiyaki, que nada mais é que um omelete com tempero japonês, fomos para a casa de show ajeitar o terreno para a estreia.
Cronograma seguido religiosamente, no qual tudo funciona de tal forma que dá vontade de querer tocar para sempre no mesmo lugar, como num sonho em eco. O que mais diferencia o Japão de outros países, além da qualidade técnica e precisão da produção, é a reação do público. Com um respeito sem igual com a música, a plateia vibra conforme a dinâmica mostrada no palco. Entregam-se e interagem com as músicas mais agitadas ou pesadas, mas, quando levei um violão de cordas de náilon ao palco para apresentar músicas do álbum Universo Inverso, o silêncio foi de sala de concerto – eu ouvia somente meu violão e minha respiração. O mesmo acontece antes do show: um silêncio profundo, como se a casa estivesse abandonada, mesmo repleta de japoneses à espera do espetáculo. Sem câmeras ou celulares durante a apresentação, todos respeitam o sinal de proibido filmar ou tirar fotos – nada é preciso pedir duas vezes. Algo surreal para nós, brasileiros.
No quarto dia, pegamos um trem bala e fomos direto a Tóquio, para um longo do dia de entrevistas que terminou em um nada convencional restaurante de sashimi de frango. No dia seguinte, data do show de Tóquio, de manhã cedo fui gravar vídeos para o DVD da revista Young Guitar. Eles levam a sério o termo “guitar hero” e imaginam que é possível tocar as partes mais difíceis do álbum em um primeiro take sem aquecer. Tudo é muito rápido e sem tempo para tentar mais uma – é o famoso “Deus nos acuda”.
O show de Tóquio, com ingressos esgotados, foi uma experiência fantástica e, logo depois, fizemos ainda uma sessão de autógrafos para mais de 200 pessoas. Dia de trabalho árduo e sem descanso, bem no estilo japonês do “carpe diem”.
Acordar cedo no domingo, dia após o show, para mais atividades intensas é algo normal na Terra do Sol Nascente. Mais entrevistas para a Young Guitar, pois sempre querem saber de tudo nos mínimos detalhes, sessões de foto e um workshop para uma seleta plateia.
O feriado nacional no dia seguinte não impediu mais uma enxurrada de atividades promocionais do meu novo disco. O descanso só viria mesmo dentro do avião, já com saudades e distante desse povo de coração limpo. Japão é um lugar sempre desafiador e estimulante. Saí de lá tendo a certeza de que fazer música é a melhor profissão que existe.

12 de novembro de 2012

Sounds Of Innocence - Release


"Sounds Of Innocence", quarto álbum solo de Kiko Loureiro, foi gravado no Brasil, Estados Unidos, Alemanha e Finlândia em fevereiro e março de 2012, tendo Felipe Andreoli no baixo e Virgil Donati na bateria. Produzido pelo próprio músico, mixado por Dennis Ward e masterizado por Jürgen Lusky, o disco lançado em todo o mundo contém dez faixas com a participação do baixista Doug Wimbish e do percussionista DaLua (berimbau) em "Mãe D'Água"; da tecladista Maria Ilmoniemi em "Ray Of Life", "The Hymn", "Twisted Horizon" e "A Perfect Rhyme"; e do percussionista Ricardo Padilla em "El Guajiro", "Ray Of Life" e "Mãe D'Água".  

Track List:
1   Awakening Prelude
2   Gray Stone Gateway
3   Conflicted
4   Reflective
5   El Guajiro
6   Ray of Life
7   The Hymn
8   Mãe D'Água  
9   Twisted Horizon
10 A Perfect Rhyme   

"Sounds Of Innocence" nas palavras de Kiko Loureiro:

"Sounds Of Innocence, meu quarto álbum solo, é a minha voz interior, que constantemente me mostra sons, melodias, texturas e harmonias. A vida não deveria ser vista como uma existência limitada, mas sim como um horizonte aberto a ser explorado e experimentado. A inocência seria o lugar onde permanecemos em tranquilidade, onde tudo é possível e ninguém é superior ao outro. Para mim, compor é esse estado natural em que libero minhas emoções, forças e fraquezas. Aprendo que, quanto mais aprimoramos nossas habilidades, mais longe poderemos ir. Uma intermitência constante entre a inocência e a experiência nos traz essa consciência. A inocência é uma das características mais importantes para acalmar nossos corações e nossas vidas. Ser inocente significa esperar que coisas boas aconteçam e esperar o melhor das pessoas. A inocência nos mantém abertos para o mundo sem a necessidade de nos protegermos ou nos escondermos. Fatos negativos podem ocorrer a qualquer hora e lugar, mas a inocência é uma escolha a ser feita diariamente. Perdê-la resulta em cinismo, em não confiar nas pessoas, não crer na vida, e consequentemente, não ter confiança em si mesmo. Preservar a inocência alimenta o sentido de estar vivo e nos possibilita evoluir como ser humano. A inocência é a essência e fonte de criatividade e liberdade. Permite estar aberto à simplicidade de ideias e aos mais profundos sentimentos e imagens musicais, o que deriva a habilidade de tocar, compor e improvisar, descobrindo constantemente a música em mim. Todos os momentos de reflexão vividos durante o último ano são representados, de alguma forma, nas dez músicas de Sounds Of Innocence. As composições descrevem minhas experiências de maneira perfeita. Combinam meu passado com o que sou agora - lembrando os momentos inocentes que passaram e simultaneamente sendo humilde o suficiente para manter a inocência como um importante valor no presente, me permitindo aprender, explorar, desenvolver e compartilhar. Amo o que faço e isso causa a sensação única de que a música é algo que nos une universalmente. A música não pertence a mim e nem a ninguém. Quanto mais eu crio, mais puro e livre me sinto para apresentar e compartilhar minha música.  

1 Awakening Prelude
O violão é meu principal instrumento quando componho e portanto é natural que Awakening Prelude seja a faixa de abertura do disco. Representa o meu dia a dia. Uma introdução calma com o violão para começar o dia. A melodia deste prelúdio antecipa o que irá acontecer na próxima música.

2 Gray Stone Gateway
Durante o processo de composição de Sounds of Innocence eu estava na Finlândia. A paisagem, a natureza e o cenário da cidade têm sido uma experiência totalmente nova para mim. Uma característica que realmente me impressiona em Helsinque são os prédios de pedra sabão, muros e igrejas. Busco a perfeita combinação de guitarras pesadas com a melodia sincopada que expressa a minha identidade como artista brasileiro. Isso está presente em todas as minhas composições e não seria diferente com essa. Minha paixão pela harmonia, acordes e progressões complexas vem da música brasileira e me leva ao jazz e fusion que também estão presentes aqui. The Gray Stone Gateway prende o ouvinte com uma complexa frase inicial. Essa música é muito direta, pesada, onde a melodia principal é totalmente baseada no ritmo latino. Os contrapontos com o riff pesado, a guitarra rápida com o fusion no interlúdio são o contraste do simples e o complexo; da experiência e inocência.

3 Conflicted
Com a guitarra em mãos tudo que toco tem um pouco das bandas dos anos 80 e dos grandes guitarristas. Eles foram muito significativos na formação da minha identidade como guitarrista. E evidentemente me orgulho em deixar isso fluir de forma natural. A introdução cria uma expectativa sobre o que está por vir. A atitude e a energia são extremamente intensas nessa música, contendo riffs rápidos assim como a bateria, os compassos e grooves. O conflito e o contraditório são musicalmente representados com a calma do interlúdio e a guitarra limpa que antecipa o som pesado que vem em seguida.

4 Reflective
Uma música calma, contemplativa e reflexiva para tocar. Harmonias simples, melodias inocentes e intervalos. Enquanto estava compondo e tocando essa música, me senti em outra dimensão, experimentando uma queda livre, como se não tivesse gravidade. Quase uma perda de consciência de espaço e tempo, e simultaneamente tendo o senso de fazer parte de algo imenso e universal. 

5 El Guajiro
El Guajiro representa o camponês, homem do interior, uma expressão cubana para descrever as pessoas nativas do Caribe. Desde o álbum "Universo Inverso", meu interesse pela música cubana vem crescendo muito. Eles têm um histórico musical muito parecido com o do Brasil, mas o resultado é surpreendentemente diferente. Em El Guajiro me deixo envolver totalmente pelo ritmo latino sem que o heavy metal me oprima. A percussão, claves e congas são fundamentais no arranjo, o que não é comum na música pesada. Normalmente, a música representa a tensão e liberação pela harmonia e melodia. Os padrões rítmicos também. As melodias sincopadas criam o momento de antecipação e tensão assim como a liberação. No decorrer da música inteira, o foco principal é o groove e os padrões rítmicos.

6 Ray of Life
Ray of Life é uma música muito introspectiva onde a melodia em escala maior e o ritmo constante me estimulam de forma indescritível. Com um toque melancólico e melodias ingênuas, ela me faz olhar para o lado iluminado da vida. Ao compor essa música, eu me vi seguindo três regras para uma boa escrita. Espontaneidade, a rápida colocação de uma ideia em forma escrita; fluidez, escrever ininterruptamente; e ser aberto, sem preconceitos, mantendo a qualidade sem saber o final. Passo para a escala menor no intervalo e junto com o ritmo brasileiro "samba de partido alto", a música entra em um momento melancólico. Na parte final, o término do solo representa a volta da sensação de felicidade e esclarecimento.

7 The Hymn
Essa música é muito diferente de todas as outras que compus. Nunca fui um grande fã de grunge, mas sempre me interessei pelas harmonias despretensiosas. A introdução e o refrão seguem a concepção de estar solto, melancólico, orgânico e rude. Para equilibrar, o restante da música é muito agitado e preciso. Seria como o digital contra o analógico ou a música eletrônica contrabalançando com o rock. 

8 Mãe D'Água
Mãe D'Água simboliza a sereia do rio Amazonas. Os nativos a chamam de Iara e de acordo com a lenda, ela canta uma música irresistível que atrai os homens para o rio e os cegam caso eles olham diretamente para ela. A melodia dessa música ficou na minha cabeça por dias e explica a minha escolha pelo título. Apesar do fato da lenda de Iara vir da Amazônia, os elementos da música são variados. O início é com o berimbau, um instrumento característico do Brasil. A guitarra repete as notas e o mesmo toque, como o ritmo original africano "Ijexá". Toda a percussão, inclusive o berimbau do início, criam a atmosfera da música até que ela alcance a melodia principal. Mantive minha parte mínima, sem exceder muitas notas - mesmo nas partes onde têm muitas, não fiz solos. Esses intervalos criam a imagem do rio Amazonas com a sereia Iara e no outro lado o berimbau brasileiro e as raízes africanas. 

9 Twisted Horizon
Essa foi a primeira música que fiz para esse álbum. Compus durante o período inicial da minha vida na Finlândia, quando me dei conta de que estava do outro lado do mundo. Não só o horizonte estava invertido, mas tudo à minha volta era muito novo. A melodia dessa música é muito positiva e forte, vislumbrando um bonito futuro. Ao mesmo tempo, sob a melodia principal, o baixo e a bateria criam um ritmo complexo representando uma certa instabilidade interior. Quando entra o refrão, tudo volta à estabilidade e positividade completa. Melodicamente essa é a faixa mais positiva do disco. A parte melancólica, à la Piazolla, reflete este lado emotivo das pessoas latinas e finlandesas.

10 A Perfect Rhyme
O disco estava pronto, todas as demos finalizadas, mas eu sabia que seria muito importante compor uma música que representasse o nascimento da minha filha e a realização de ter uma família. Sentei no piano com essa ideia em mente e a música me veio por completo. Eu a mantive exatamente como foi criada mesmo podendo usá-la como uma introdução para uma música mais pesada ou então para uma linda balada. Mas se eu fizesse isso, mudaria a proposta inicial da música. Em A Perfect Rhyme a guitarra e o piano são acompanhados por um bonito arranjo orquestral para fechar o álbum. Está finalizado.


Todo álbum é resultado de muito trabalho, comprometimento, e consequentemente uma enorme realização. Entretanto, esse disco foi um dos mais significativos e importantes para mim. Sounds Of Innocence representa o que sou hoje, toda minha musicalidade, aspirações e desejos.
Muito obrigado!"

2 de novembro de 2012

SONS DA INOCÊNCIA




Blog da Guitar Player de quando saiu o álbum Sounds of Innocence

SONS DA INOCÊNCIA
Inocência e experiência podem andar juntas. À primeira vista, soam como antônimos, mas podem co-habitar o mesmo momento, o mesmo estado, estar presentes em nossa forma de criar, compor e fazer música. A experiência de tudo que acumulamos ao longo da vida, dos estudos e vivências. A inocência que traduz a beleza, simplicidade e ingenuidade, que nos remete ao infantil e singelo. Leonardo da Vinci já disse que simplicidade é a sofisticação máxima e William Blake também já discursou sobre experiência e inocência. Não deixar que a inocência seja perdida é a chave para o equilíbrio na arte e para o encontro da plena satisfação pessoal no trabalho. Nunca devemos nos sentir limitados, mas, sim, sempre imaginar um horizonte aberto a explorações e descobertas nas quais a condição de estar ingênuo e inocente torna tudo possível e palpável.
Sounds of Innocence (sons da inocência) é meu novo trabalho solo, meu novo álbum de guitarra instrumental. Carrega a experiência profissional de tantos anos de estrada e a eterna busca pela liberdade, ingenuidade e inocência nas composições e performances. Um álbum de produção complexa. A começar pela bateria com Virgil Donati, na Califórnia (EUA), guitarras e percussão de Ricardo Padilla, em Helsinque (Finlândia), berimbau de DaLua, em São Paulo, baixo de Felipe Andreoli, em Jundiaí (SP), e uma música com o baixista Doug Wimbish, em Nova York (EUA), além de guitarras extras, mixagem e masterização na Alemanha. Foram oito estúdios em quatro países diferentes.
Escrevi ultimamente nesta coluna sobre composição, gravação e liberdade criativa, refletindo exatamente o que vivi nos últimos 12 meses. Desde a decisão de começar a trabalhar com foco em novas músicas até o momento de ter o álbum nas mãos, foram 12 meses entrecortados por turnês, shows e inúmeras viagens. Agora é o momento de compartilhar o que criei e observar os mais diferentes comentários sobre as músicas. Acho fascinante saber se estas canções farão parte da vida das pessoas, se poderão acrescentar algo de bom em cada um. Para mim, é claro, cada composição é um aprendizado, uma terapia, uma análise profunda dos meus gostos musicais e dos sons que existem dentro da minha cabeça e me impulsionam a fazer um trabalho com eles. Porém, para quem ouve o disco finalizado, sem saber todo o caminho anterior percorrido, em meio a tanta informação do nosso cotidiano, o impacto certamente é diferente. O bom é que esse impacto vem puro, sem as dúvidas e receios do autor. Espero que seja uma obra da qual as pessoas se sintam donas, apreciem, emocionem-se, dividam e que faça parte de bons momentos na vida – aquela em que a gente deve adquirir experiências sem esquecer da íntima inocência. 

7 de outubro de 2012

Acoustic Guitar Meeting – Sarzana





Acoustic Guitar Meeting – Sarzana
Seguindo a filosofia do “jogue-se na fogueira”, aceitei participar do mais conceituado festival de violão da Itália, no final de maio deste ano, em Sarzana, na província de La Spezia. O Acoustic Guitar Meeting acontece há mais de 15 anos dentro de um castelo incrível, do qual não me arrisco dizer a data de construção. O evento é um mix de show, encontro de luthiers, lançamentos no mercado de acústicos e, inclusive, um pequeno museu que mostra a história do violão.
O palco principal foi posicionado no pátio central do castelo e, ao longo de três dias, inúmeros músicos fantásticos passaram por ali. Toquei no dia da abertura antes da atração principal, o canadense Don Ross, um dos precursores do fingerstyle, estilo que Michael Hedges consagrou e do qual Andy McKee é hoje referência graças ao boom da internet.
Fui convidado graças à música brasileira e ao nosso legado de violão brasileiro, que tem passagem livre em qualquer lugar do mundo, ainda mais quando se trata de um festival exclusivamente acústico. Creio que fui o único com violão de náilon nessa edição do festival. O fingerstyle está em moda e a cultura norte-americana, como sempre, é forte e dominante, mas sempre há o interesse na música do nosso País.
Tive de me preparar para esse show em meio à finalização do meu novo álbum solo, que será lançado em breve no Brasil. Concluir um álbum – acompanhar parte gráfica, fotos, arte, textos, contratos de licenciamento e editoração, registro das músicas, planejamento de datas, entre muitas outras coisas – toma mais tempo até mesmo que a gravação das guitarras.
Sendo assim, tive de ser bem eficiente no estudo do violão, que é um outro mundo em comparação à guitarra elétrica. Defini um repertório que incluiu músicas minhas compostas para violão, canções especialmente arranjadas por mim e, claro, standards brasileiros que os europeus tanto gostam de ouvir.
Ao longo dos 15 dias que antecederam o festival, toquei pelo menos duas vezes o show completo, fora os exercícios básicos de aquecimento. O fator “jogue-se na fogueira”, em que primeiro se arruma um “problema” e depois se procura a solução é, ao menos para mim, uma ótima forma de motivação, concentração e planejamento, afinal, não há como postergar a data e não existe a opção de desistir ou fugir. Dessa forma, no meio da caótica vida moderna, na qual a cada segundo aparece algo para nos distrair, encontramos o tempo obrigatório para abstração e estudo, foco e determinação para extrair o melhor de nós mesmos em um curto espaço de tempo.

foto por :  Valeria Gnarini

13 de setembro de 2012

SHARE: COMPARTILHAR



Esse verbo está na moda. É palavra de ordem na internet e, quanto mais engajado, atualizado e inserido no mundo moderno, mais compartilhamentos você deve fazer diariamente – dividir com as pessoas o que você pensa ser interessante, o que aprendeu, o que está em fase de desenvolvimento, suas criações, adaptações e visão de mundo.
Artistas, cientistas e todo profissional bem-sucedido carregam essa vontade de compartilhamento dentro de si É um sinal de que existe uma satisfação interna naquilo que se faz. Essa atitude de dividir conhecimento e experiências é algo extremamente benéfico e quanto antes percebermos isso, melhor . A paixão pelo que se faz é tão grande que a sensação de que a todos pertencem é imperativa – uma percepção de que sua obra passa a ser algo universal, muito além do pequeno e egoísta.
Um músico de blues, por exemplo, defende com alma e dentes o gênero e deve repassar adiante tudo o que aprendeu para criar uma cena do estilo mais forte e rica – em vez de guardar para si, escondendo o jogo. Assim, com felicidade, ele verá outros músicos talentosos e bandas, como uma confraria de amigos pelo mesmo ideal, e não como concorrentes.
Compartilhar o que fazemos com a sensação de não pertencer a ninguém nos deixa de tal forma livres que dizer o que é melhor ou pior torna-se relativo. Reconhecendo esse sentimento e posicionamento perante os outros, encontramos uma liberdade consistente que será o impulso para a criatividade e o autodesenvolvimento. Além disso, para comunicar seus conhecimentos é necessário racionalizá-lo, e isso por si só já ajuda muito em atingir um nível superior na criação.
Por muitas vezes nos deparamos com a dúvida de que nossa arte talvez não seja tão boa e que as pessoas não irão gostar. Essa atitude de comparar com outros trabalhos perturba diretamente a sua relação com o que você faz e torna-se um obstáculo no processo criativo, interferindo no fluxo da criação. Isso serve para qualquer situação, mas, em nosso caso, guitarristas e músicos, influi negativamente no momento da composição ou da improvisação.
Esses obstáculos, receios e medos estão dentro de nós e por isso é tão difícil chegar a instantes de pura inspiração e criatividade plena. Quanto antes notarmos e evitarmos essas dificuldades que nós mesmos nos impomos inconscientemente, melhor.
A total liberdade, pela qual descobrimos nossas melhores músicas, solos e improvisos, ocorrerá apenas quando estivermos certos do que somos e onde queremos chegar, pois isso traz um sentimento de paz e segurança que nos proporciona uma energia incrível e, assim, a criatividade é coroada. Por outro lado, os receios de descobrir quem você é atravanca e obstrui o processo criativo. Estude, descubra, pesquise, organize as informações e evolua ao dividir suas conquistas com os outros.

16 de agosto de 2012

A ARTE E A CIÊNCIA EXATA


A ARTE E A CIÊNCIA EXATA
Criar, compor e desenvolver um trabalho na exata forma que reflita como queremos nos apresentar como artistas é, com certeza, a parte mais demorada e trabalhosa da idealização e produção de um novo álbum. A gravação propriamente dita de todos os instrumentos não é menos árdua e também demanda intensa dedicação, ainda mais em um processo solitário, já que se trata de um álbum de guitarra instrumental, sem a companhia dos colegas de banda. No entanto, ela toma muito menos tempo do que a etapa criativa.
Nesta vida digital moderna, em que temos a condição de criar uma maquete do que virá a ser o álbum, ou seja, uma demo sofisticada que soa praticamente finalizada – com todas as baterias programadas, teclados, melodias e solos feitos no computador –, surge uma não esperada dificuldade quando é chegada a hora crucial de registrar definitivamente a obra: a insolúvel questão de como reproduzir o momento tão especial da criação de uma arte, instante puramente intuitivo do desenvolvimento de uma composição, que havia sido registrada em forma de demo sem maiores pretensões técnicas, somente com intenções artísticas.
 Devido às perfeitas condições de um bom estúdio, aparece a sensação de obrigatoriedade de que a música deva ficar ainda melhor, como se a tecnologia pudesse se sobrepor à criatividade. Essa etapa é curiosa, pois a demo, muitas vezes, soa melhor que o próprio álbum, no sentido de transmitir algo mais cativante, mais emocionante. Lembro-me dessa discussão ao registrar Angels Cry, do Angra, primeiro álbum da minha carreira. Em meio às gravações, nosso empresário ficou reticente por achar que a simples demo feita no Brasil tinha mais alma do que os registros que fazíamos naquele estúdio custoso, rodeado de tecnologia alemã de ponta.

As condições caseiras e sem esmero carregam a magia da criação, aquele momento de inspiração que aparece intermitentemente, nada fácil de reproduzir a qualquer hora. Ela traz em si o dia, a semana, o instante em que a energia estava totalmente focada na música, e nem tanto na performance ou nas técnicas de gravação. No estúdio, o dilema aparece: como reproduzir aquele momento incrível que fez com que a composição surgisse, mas de uma forma que, ao mesmo tempo, soe melhor, mais bem executado, mais limpo e claro, com total cuidado com os timbres, instrumentos e todas as inúmeras possibilidades que um estúdio profissional oferece. Talvez aí esteja a pedra no caminho. 

Quanto mais esmero e polimento, menos sentimento e alma. Apesar dos anos de experiência e de já ter gravado inúmeras vezes, encontrar o equilíbrio entre o polimento artificial e o verdadeiro é sempre angustiante e muito difícil. Diante das ferramentas digitais, fica fácil gravar de novo, corrigir somente mais uma notinha, deixar este ou aquele bend perfeitamente afinado, colocar no grid os atrasos ou afobações e assim por diante. São as imperfeições humanas que fazem com que a arte seja chamada de arte, enquanto a engenharia de estúdio, que elimina essas imperfeições, não passa de ciência exata.

12 de agosto de 2012

Persona Musical



PERSONA MUSICAL
É sempre difícil decidir a hora de gravar um novo álbum. Compor é algo compulsivo, um exercício diário em que, na maioria das vezes, com o instrumento em mãos, alguma ideia surge do nada. Não brota com a perspectiva de ser fantástica, de ser inovadora nem nada, isso é o que menos importa. Ela tem de representar uma sensação de realização e ser naturalmente agradável para aquele instante, puro deleite momentâneo. A questão é, com esse material em mãos, saber colher, selecionar, apurar, garimpar entre as próprias criações algo que represente a sua personalidade.
Um álbum não pode ser feito com uma coleção de ideias esparsas, nascidas aleatoriamente, coladas sem um conceito estabelecido. Um disco deve representar como você quer ser visto, ouvido e apreciado, representar o artista que deseja ser. Nem todas as ideias que aparecem participam desse estado, pois nascem sem compromisso. As criações devem fazer parte de um mesmo caminho sonoro, um mesmo ideal musical, e ser uma busca interna constante em todo artista. Uma viagem musical devidamente registrada em formato de álbum, que será promovida e vendida, ou seja, dividida com outras pessoas, tem a capacidade de trazer à tona as mais diversas dúvidas, receios e porquês enquanto músico e identidade. Porém, ser um artista é ser, por excelência, convencido o suficiente para acreditar que existe público para a arte que deseja apresentar, é ter o ego suficientemente inflado para perder a timidez natural do ser humano e enfrentar um palco e, inclusive, achar que é importante o bastante para mostrar ao mundo a sua arte.
Diferentemente de uma banda ou um artista mainstream, que possuem seus sentimentos e criações misturados com as obrigatoriedades do mercado fonográfico e suas fórmulas, um álbum instrumental de guitarra não possui limites ou barreiras. O propósito de um projeto solo é uma busca egoísta, cuja única função, no processo embrionário das composições, é a relação íntima com os próprios sentimentos. Quando chegada a hora de partilhar as ideias com os outros músicos e o produtor, as composições perdem essa função autocrática e adquirem uma forma mais colaborativa até alcançarem a plena condição democrática em que o público pode ouvir, comentar, criticar, cantar e tocar suas ideias outrora tão íntimas e descompromissadas.
Tendo consciência de tudo isso, a melhor opção de formatar um álbum, quando diante das prateleiras virtuais de arquivos e mais arquivos de músicas completas, riffs e melodias fragmentadas, é escolher as mais recentes e aquelas que ainda reflitam seus sentimentos e sua visão musical do momento. Não me refiro a estética ou estilo, mas, sim, a melodias, intervalos, tonalidades que consomem o cérebro diariamente ao aparecerem repetitivamente em uma forma tão bela que chega até a incomodar.
Saber reconhecer esses sinais e deixá-los fluir é muito importante para criar uma relação de você com você mesmo, de acreditar nos seus sentimentos mais internos e, por consequência, acreditar na sua música. Esses são os alicerces de sua persona musical e os arranjos e produção vêm muito depois desse estágio.
Nós carregamos música dentro de nós, que vem sendo selecionada de acordo com essa persona desde o colo materno. Assim, os sons sedimentados do passado com os do presente emergem e representam o que somos. Estou começando a gravar meu novo álbum solo e vou relatar as etapas nesta coluna. A primeira já foi: compor e criar os arranjos para partilhar com o baterista Virgil Donati e o baixista Felipe Andreoli.



11 de agosto de 2012

Blog da Guitar Player de Março 2012



NAMM 2012 ( Guitar Player março 2012)

Tornou-se tradicional em meu blog falar sobre minha visita à
 NAMM, a convenção que rege o mercado de instrumentos musicais do mundo, realizada em Anaheim, na Califórnia, a cada início de ano. O sol, as palmeiras, as limousines, as festas e o glamour continuam os mesmos de sempre, sem perder a pose mesmo após anos consecutivos de crise.

 São quatro dias de exposição, em que não há venda de ingressos – os convites são distribuídos apenas para quem está envolvido no ramo e tem alguma relação com os fabricantes que ali expõem. É divertido conhecer e conversar com pessoas que trazem em seus sobrenomes as marcas que tanto cultuamos e desejamos, apertar a mão de músicos que nos influenciaram no passado e conferir em première os produtos que irão se espalhar pelas lojas do mundo ao longo do ano. Esse contato humaniza a fantasia, mas, ao mesmo tempo, faz com que reverenciemos as conquistas tecnológicas e ideias brilhantes dessas empresas, que criam nossas fantásticas ferramentas de trabalho.

Logo cedo, cursos e palestras iniciam a festa, enquanto empresários das mais diversas etnias e artistas com cara de que acordaram fora de hora enfileiram-se com suas identificações nas portas de entrada. Minha função em 2012 foi apenas estar presente nas mesas de autógrafos das marcas que me patrocinam, como Laney, D’Addario e Zoom. Além disso, houve reuniões e conversas com músicos, engenheiros e gerentes de marketing. 

Tudo muito rápido, pois o lema “tempo é dinheiro” impera por lá.Diferentemente da Expomusic, realizada no Brasil, a NAMM fecha as portas ao cair da tarde e, a partir daí, apresentações para lá de especiais tomam conta dos salões nos hotéis das imediações. Pude presenciar três Steves juntos, no mesmo palco: Vai, Lukather e Morse, ao lado de Paul Gilbert, tocando covers e se divertindo em uma jam incrível. Em outra festa, Steve Wonder e sua banda homenagearam James Jamerson em um show para lá de intimista. São tantas possibilidades de eventos e shows que fica difícil se decidir para onde ir.A profusão de ideias que são apresentadas nesses quatro dias é exuberante. Além das novidades nos produtos, a preocupação da convenção em manter a troca aberta de conhecimento chama a atenção, o que nós, aqui no hemisfério sul das Américas, deveríamos usar como exemplo.Pude participar de palestras revigorantes sobre os mais diversos temas: renomados produtores musicais e suas experiências com grandes artistas, discussões de como utilizar as novas ferramentas de marketing de internet e uma bastante interessante, sobre como um músico deve pensar com cabeça de CEO. São mais de cinco auditórios com palestras ininterruptas ao longo do dia.A importância dada ao conhecimento já é uma aula por si só. Creio que isso é o que forja o alicerce dessa economia, a qual, mesmo ainda febril, é tão poderosa que dita as regras para o mundo.Educação, cultura e sabedoria em um ambiente de puro negócio, competição, segredos industriais, patentes e concorrência árdua. Isso comprova que não existe efeito sem esforço e sem estudo, que não há poesia sem prosa e que, para a formação de uma sólida carreira ou um grande negócio, é necessário observar o mundo ao redor e seus diversos aspectos. Pensar diferente para criar diferente.

 São essas trocas de conhecimentos que fornecerão as ferramentas para um avanço. Explorar, desenvolver e dividir as experiências é o lema ali proposto. Não há melhor forma de entender as rápidas mudanças no mundo do que ouvir quem está no topo dessa cadeia – já dizem os sobrinhos do Tio Sam. Nós chegaremos . Basta derramar suor sobre os livros ou, talvez, sobre as cordasou melhor, sobre os dois...

7 de maio de 2012

Queda Livre



QUEDA LIVRE ( Guitar Player Fevereiro 2012)

Liberdade de expressão. Nós não nos damos conta, mas esquecemos esse termo na maioria das vezes em que tocamos. Não exercitamos suficientemente nossas reações criativas e reflexos musicais, com a finalidade de alcançar algo surpreendente e inédito para nós mesmos a cada vez que tocamos. Estamos sempre a emular este ou aquele guitarrista, tocar músicas dos outros e caminhar dentro da trilha demarcada previamente por algum pioneiro, perdendo assim o senso puro do que é o improviso e caindo constantemente na tentação de repetir fórmulas prontas.
Com certeza, é fundamental aprender caminhos, atalhos, ferramentas sonoras e o que for preciso para entendermos a construção complexa de uma música, um solo, melodia ou sequência harmônica. Porém, o sentimento satisfatório da criação esconde-se, definha e fica posto de lado à mercê do preestabelecido e do medo do risco. A liberdade, assim, não é tolhida por terceiros, mas por nós mesmos, que a cerceamos ou suprimimos.
No final de 2011, fui convidado para tocar em duo com o lendário multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo, no Guitar Player/IG&T Festival, em São Paulo. Brasileiríssimo, Arismar é o símbolo da real liberdade de expressão. Personifica a palavra improviso e relaciona-se com o mundo, com as pessoas e com a música dessa forma. Autêntico, singular, generoso e, para nossa sorte, músico, ele imprime essa personalidade cativante em suas melodias, seus acordes (e que acordes!) e sua forma de se expressar – é a espontaneidade em pessoa.
Já conhecendo o Arismar, preparei-me para o evento da única forma com que eu obteria resultados, ou seja, não planejei nem preparei nada e parti com o espírito do “seja o que Deus quiser”. Sabendo que um dos seus acordes poderia me jogar para a lona, assimilei os fatores liberdade de expressão, amizade e diversão para fazer com que, qualquer que fosse caminho seguido, a música fluísse com beleza e naturalidade
Marcamos um encontro antecipadamente para definir como seria esse show de uma hora, o que, obviamente, não foi um ensaio, mas, sim, um belo jantar entre amigos. Dentre tantos assuntos, definimos os andamentos, tons e situações harmônicas que serviriam de guia no início de cada tema. Corcovado destoou da lista, afinal, é sempre bom tocar um standard, com começo, meio e fim. Porém, salvo a apresentação da melodia, os ritmos passearam pela costa brasileira antes de aterrissar na bossa nova do Cristo Redentor.
A proposição de tocar o desconhecido deveria ser mais presente entre nós – tocar entre amigos e deixar a música fluir para onde ela mandar. Obviamente, é necessário um mínimo de vocabulário e bagagem musical, mas o principal é o espírito de desprendimento com regras e fórmulas e estar pronto para, em queda livre e vendado, ser levado para onde os ouvidos conduzirem.
Não tenho ideia do que o público, que provavelmente tinha outra expectativa do que eu apresentaria naquela noite, sentiu ao ouvir tal liberdade de expressão, mas tenho certeza de que a espontaneidade, o sorriso e a alegria de dois músicos totalmente à vontade, fazendo o que mais gostam em cima de um palco, devem ter cativado qualquer um ali presente.

4 de abril de 2012

QUANDO A MÚSICA VENCE


QUANDO A MÚSICA VENCE

Às margens dos famosos canais da cidade de Amsterdã, na Holanda, uma noite de extravagância guitarrística em homenagem ao ícone Jason Becker aconteceu no mês de novembro passado. O festival com um nome de gosto duvidoso, Jason Becker Is Not Dead Yet (em português: Jason Becker não está morto ainda), foi criado com a função de angariar fundos e colaborar com Jason e o movimento de apoio aos portadores de ELA (esclerose lateral amiotrófica). Foi a versão europeia do festival que ocorreu no início do ano em Hollywood, Estados Unidos, que contou com a presença de Joe Satriani, Greg Howe e outros ícones da guitarra. Desta vez, 13 guitarristas – 11 europeus, o norte-americano Micheal Lee Firkins e eu – apresentaram seu respeito e admiração por Jason em cinco horas consecutivas de músicas e performances exuberantes.

Os ensaios começaram dois dias antes do evento. O baterista Atma Anur, que gravou os discos de Becker nos anos 1980, e o baixista Stu Hamm prontamente se colocaram à disposição para aprender as mais de 35 músicas de todos os guitarristas presentes. Isso mesmo, todas as músicas! Complicadas, ricas, cheias de partes, de diferentes estilos e do trabalho individual de cada um – somaram-se ainda algumas das canções mais representativas de Jason. Um profissionalismo impressionante de Anur e Stu, que só puderam experimentar e praticar cada música apenas uma vez ao longo das quase 30 horas de ensaio em dois dias. Os lendários músicos aprenderam com perfeição as minhas músicas, como Enfermo, Pau-de-Arara e Escaping, que são longas e possuem estrutura com muitas partes. Como o próprio Stu disse: se aceitou o convite, tem de aprender, pois não existe meio caminho – toca-se a música ou não e, como não existe a opção de não tocá-las, resta apenas aprendê-las nota por nota. Atma Anur e Stu Hamm escreveram o mapa e a partitura de cada tema e brilharam na noite.

Cheguei a Amsterdam na véspera do evento, junto com Micheal Lee Firkins, Mattias Eklundh e Guthrie Govan. Nós quatro formamos o grupo final do evento. Aconselho conhecer o trabalho desses guitarristas fantásticos, caso os nomes deles não estejam em sua memória. Firkins, por exemplo, apareceu com um estilo peculiar na década de 1990. Ele utilizava a alavanca para emular frases de bottleneck, misturada com tapping e técnicas modernas. Mattias já foi capa da GP brasileira e esteve na Expomusic 2011, onde mostrou sua inventividade e harmônicos que soam como um pedal Whammy. Guthrie Govan é impressionante, de um bom gosto para lá de inspirador, além de sua precisão, conhecimento e técnica. Outros guitarristas excepcionais participaram do evento, como Marco Sfogli, que toca com James LaBrie (Dream Theater), Stephan Forté (banda Adagio).

Encontro de guitarristas desse porte é sempre um incentivo. A sensação é de amizade e cumplicidade pelo fato de dividirmos uma história de vida e dedicação à guitarra e, claro, um sentimento de apreço, respeito e compaixão por Jason Becker, que acompanhou cada minuto do festival via Skype, devido à impossibilidade de ele viajar.

Apesar da saúde de Jason, a sua arte permanece forte dentro de todos que estavam naquela noite e de tantos fãs pelo mundo. O prodígio, que teve sua bela história de vida ceifada por uma fatalidade, continua a nos inspirar, motivar, unir e criar. Exemplo de quando o homem e sua arte vencem.


25 de março de 2012

Revista Guitar Player de dezembro de 2011.

CINGAPURA, HONG KONG, TAIWAN E FILIPINAS (Dezembro 2011)

Pelo jeito, o foco mundial continua voltado para a Ásia. Recebo constantemente convites para viajar para o outro lado do globo, onde o showbiz está sempre aquecido e sedento por atrações. Estive no mês de maio explorando as cidades “menores”, com seus 10 milhões de habitantes, da China. Agora, acabo de voltar de uma pequena turnê organizada pela Laney para o lançamento mundial da nova série Ironheart.

Mesmo distantes e diferentes, esses países possuem uma série de similaridades socioculturais com o nosso. A primeira parada foi Cingapura. Tente achar este país no mapa e você descobrirá apenas um pequeno ponto. Porém, a modernidade, riqueza e desenvolvimento daquele lugar é de impressionar qualquer um. O evento, organizado dentro de um teatro em um belo museu, possibilitou meu contato com pessoas dessa pequena cidade-país, que possui uma miscelânea cultural de malasianos, chineses, indianos e ingleses. Depois, direto para Hong Kong, capital asiática dos negócios, chinesa em relação à cultura, mas de hábitos enormemente internacionalizados. Tudo muito corrido, sempre utilizando-se da técnica do “coma sempre que der e durma quando puder” – com o fuso-horário e as viagens longas e seguidas, o organismo fica perdido e, sendo assim, qualquer hora é boa para dormir ou comer.

No dia seguinte, fui para Taiwan, porém, como tivemos um problema com o visto, perdi o voo e cheguei ao evento na cidade de Tainan, sul de Taiwan, uma hora atrasado, indo direto do aeroporto. Confirmada, portanto, a regra do coma e durma quando puder...

Vale lembrar que fico um dia ou um dia e meio em cada país e, além do workshop e passagem de som, há entrevistas, visitas a lojas e encontros com fãs, eventos que tomam a maior parte do tempo. E haja café na terra do chá! Após Tainan, fui de trem-bala para Taipei, capital de Taiwan, em que fiquei um dia e segui viagem para as Filipinas. Dos quatro países, o único que eu visitaria pela primeira vez era as Filipinas – conhecida na Ásia como o país dos ótimos músicos, exportadora de talentos para hotéis, cruzeiros e qualquer lugar que queira um bom instrumentista asiático. A história do país é similar à nossa. Colonizados por espanhóis e, depois, por americanos, é uma nação cujo desenvolvimento derrapa no lamaçal da corrupção (a nossa história não deixa de ser diferente, até mesmo na parte dos americanos, não é?). O que achei mais interessante foi a língua, que mistura inglês e espanhol com o idioma local. Tive um dia de folga, no qual pude fazer turismo e conhecer um pouco dos considerados “latinos de olhos puxados”. Seus guardas têm um quê de cangaço, a pontualidade é subjetiva como a nossa, há larvas fritas no jantar e o trânsito é mais travado que o de São Paulo, pois o transporte coletivo é feito basicamente em jipes antigos enfeitados ao gosto do motorista. Apesar de estar no hotel mais luxuoso do país, com direito a revista de segurança igual à dos aeroportos, algo típico de países com apartheid social velado, aventurei-me e fui dar uma volta de jipe. Aproveitei para conversar com as pessoas e dividir o sentimento de ser brasileiro, ou seja, um ser “em desenvolvimento” como eles.

Ao final de uma turnê curta e intensa como esta, permanece no melhor cantinho da memória os momentos bons, de descobrir novas culturas, conhecer excelentes instrumentistas de etnias distantes da nossa e poder tocar para pessoas com um histórico de vida tão diferente, mas que compartilham da mesma paixão pela música. Não deixo nunca de agradecer o que os momentos solitários de estudo me proporcionaram e para onde a guitarra me levou e ainda me leva. Agora, escrevo este texto a caminho de Amsterdã, para um tributo a Jason Becker. Semana que vem, tenho mais eventos em cinco dias na Itália.


7 de março de 2012

Ensinando e Aprendendo - na Europa


Mais um post antigo da Guitar Player


Prometi no blog anterior contar como foi o European Summer Camp, que aconteceu na Itália, em agosto. Cursos intensivos de várias modalidades em lugares com incríveis belezas naturais e festivais gigantescos a céu aberto são sempre as grandes atrações do Velho Continente antes que o sol, que tem data certa para partir, suma de uma vez e a temperatura despenque para o negativo e enclausure as pessoas em suas casas. Há dois anos, participei de um curso de verão com Mattias “IA” Eklundh, à beira de um lago nas florestas vizinhas a Estocolmo, Suécia. Agora, neste verão europeu, ao lado de Allan Holdsworth e Richard Hallebeek, estive no European Summer Camp na Sicília, Itália. Foram quatro dias nos quais cada guitarrista ministrou uma aula de duas horas por dia, totalizando 24 horas de informação intensa.

O cenário escolhido foi o primeiro grande atrativo do curso. Siracusa é uma cidade histórica na ilha da Sicília. Tem cerca de 2.700 anos e já foi uma das cidades mais importantes do Mediterrâneo, fundada pelos gregos e depois tomada pelos romanos. Foi ali que Arquimedes, de dentro da banheira da sua casa, gritou o seu famoso “Eureca!” e saiu correndo nu pelas ruas. Um lugar de arquitetura única, praias paradisíacas às margens do mar Mediterrâneo e sol de 40 graus. Encantos que, felizmente, não foram suficientes para desconcentrar o grupo de guitarristas que lá estiveram – nós nos mantivemos focados inteiramente no que tínhamos a dizer.

Após as, para mim, já tão familiares horas de check-ins, revistas de segurança, voos, escalas e van, cheguei à maravilhosa cidade vindo de Helsinque, Finlândia. Holdsworth e Hallebeek já estavam no hotel à minha espera e fomos direto apreciar a culinária mediterrânea na noite da chegada em Siracusa.

O dia seguinte seria de passagem de som e a primeira aula. Richard, por já ser professor na Universidade de Amsterdã, trouxe um material completo e superdidático. Eu também preparei uma apostila com diversos assuntos, mas que não segui à risca, pois queria deixar a coisa fluir de acordo com o nível dos alunos. O Allan já foi diferente e inusitado. Com suas décadas de experiencia musical, ele sempre foi avesso a ministrar aulas ou cursos. Holdsworth acredita em sua música e quer apenas tocar – não está preocupado em teorizar ou explicar nota por nota o que sai de sua cabeça.

Obviamente, presenciei suas aulas e as conversas ficavam no filosófico e nada muito prático. Ele não tinha playback algum e, convenhamos, falar e responder perguntas sem ter nada preparado ou algo para tocar ao longo de duas horas é muito difícil. Por isso, no segundo dia, Richard e eu fomos convidados por ele para criar algumas atmosferas para ele poder improvisar. Nada planejado. Eu tocava algumas sequencias de acordes, enquanto ele ouvia e derramava seu talento e concepção avançada. Alguns vídeos estão na internet e mostram um pouco desse momento, apesar de ter sido proibido filmar o evento.

No terceiro dia do curso, Allan comemorou seu aniversário de 65 anos e fizemos uma grande festa para ele. Sempre no melhor estilo inglês, de humor sarcástico e impiedoso, Holdsworth zombava da situação, enquanto os alunos e eu, é claro, reverenciávamos o mestre. Foi uma oportunidade única poder comemorar com ele seu aniversário e entrar madrugada adentro trocando ideias musicais e ouvindo frases da voz da experiência.

O quarto e último dia teve mais aulas, a entrega de diplomas e despedidas. Foram momentos intensos, nos quais fui para ensinar e acabei aprendendo muito. Com o tempo e a maturidade, percebemos cada vez mais que é a convivência com outros músicos que nos mostra como eles tocam. Explicações de como compõem ou por que tocam determinadas escalas, frases e ritmos ou por que aplicam certos conceitos musicais em seus trabalhos, isso tudo nem sempre é possível colocar em apostilas. Tudo está explicado na forma como a pessoa age nas situações diversas da vida, no seu jeito de ser, falar e interagir com as pessoas. Somos o que tocamos, tocamos o que somos.