3 de dezembro de 2010


OBRIGAÇÕES DE MERCADO

Agora é tempo de corresponder às “obrigações de mercado”. Pensativo, tentei absorver essa frase que li em uma dessas revistas de assuntos corporativos e negócios, durante um raro momento de ócio em uma sala de embarque de algum enfadonho aeroporto.

Fiquei assustado com o significado intrínseco que isso deve causar nas pessoas, pois a frase estava dirigida a seres humanos e não a corporações. Bom para psicólogos, psiquiatras e a indústria farmacêutica.

Qual seria essa “obrigação de mercado”?

Imagino que, entre elas, ser emocionalmente inteligente está acima de tudo, em voga. Ser inteligente à moda antiga já não é suficiente. Lembro-me de ouvir de um guru corporativo palestrante que ser “bom ou ótimo em algo não levará a nada”, temos, sim, que ter “excelência” no que fazemos, senão, profetizava o tal, ficarás na “corrida de ratos”. O mercado farmacêutico agradece.

Mas, então, qual é o parâmetro para ser excelente?

O mundo que nos colocam à frente, nas mídias e artes em geral, é polido, perfeito, “photoshopado”, “autotunado”, comprimido, asséptico, maquiado, 3D, HD, nas medidas dos paquímetros digitais, controlado pelos profissionais do marketing, consultores de moda, de mídia, assessores, colegiado de magistrados e por aí vai...

Em nossa profissão de guitarristas, colidimos com o mesmo transtorno de nossos tempos. Temos de ser tudo ao mesmo tempo agora e, por obrigação, eficazes e perfeitos, sem a possibilidade de falhar e ter o direito de ser “somente” bom no que fazemos.

Daí surge mais uma lista de “obrigações de mercado”: solos perfeitos, técnica invejável, bases firmes e potentes, composições emocionantes, tocar diferentes estilos, ser um arranjador criativo, impecável nos trajes, ser garoto propaganda presente em todos os eventos, ser o cara legal e profissional, equipamento completo e versátil, saber falar, escrever, manter o Twitter com milhares de seguidores, e-mails em dia etc.

Com o domínio do cognitivo em nossas vidas, onde fica o contemplativo? Tudo é cerebral e por si só deve ser perfeito e sob controle para estarmos felizes e satisfeitos. Não! No contemplativo atingimos o substrato do criativo, alcançando o contentamento e satisfação própria, egoísta e autocrática. Afinal, somos artistas antes de mais nada. Creio eu que a solução da questão é saber ligar o “f...-se” por muitas vezes e ignorar essas inventadas “obrigações de mercado”.

14 comentários:

Anônimo disse...

Acho que vc ja disse isso?!?

Lita Barros disse...

Kiko,
Imagino o quanto deve ser difícil adequar-se às expectativas do mercado. Afinal, por trás do super guitarrista de técnica irretocável e estilo versátil existe um ser humano, passível do erro, que pensa por si (muitas vezes diferentemente do que o mercado anseia). Não somos apenas máquinas feitas para produzir resultados primorosos, somos GENTE!
Saber enxergar qual a hora certa para ceder às pressões ou extravasar um sonoro "F...-se _|_" é algo louvável e sinal de maturidade artística e de personalidade -coisa rara hoje em dia. Mais uma vez vc está de parabéns!
=*

Iris Gabrielle disse...

kkkk Gostei da alternativa, Kiko!
É, de fato, muito complicado. Ninguém nunca é bom o bastante, seja qual for a profissão.
Sou professora e sei bem como é que são essas cobranças! Temos que ser professores, pais, psicólogos, babás, orientadores espirituais, pesquisadores, estar sempre nos qualificando, atender a todos os pais... etc...etc... e se algo de errado acontece... advinha de quem é a culpa?!
Tanto o seu trabalho quanto o meu nos deixam expostos e suscetíveis a críticas constantes, não interessa o quão boa é a sua prática. Mas o importante é, como você ressaltou, a satisfação pessoal, pois estando bem consigo mesmo o resultado é o melhor possível, e se nem todos gostam, paciência!
Quando comecei a acompanhar os trabalhos do Angra e os seus, ouvi muitas coisas a seu respeito, apenas ouvi, tenho minha própria opinião sobre você e tenha certeza que executas tua "tarefa" com excelência, sem dúvidas, e como todo ser humano, és suscetível a erros também.
Continue fazendo o que gosta da forma que lhe agrada que com certeza estarás fazendo o melhor! E que bom poder te acompanhar um pouco mais por aqui! Estou adorando.
Mil beijos!!! XD

Cristiane Foganholo disse...

Vc se descreveu ao citar todos esses adjetivos...!!! Sua obrigação com o mercado está cumprida!
Acho que tá na hora de vc ligar o seu botão de "F...-se!"

Dyah Prabaningrum disse...

It's more important to be ourself (read : to play the music that we love and explore our creativity) and ignoring the market bonds. Working or creating something is solely not just for "physical" and "visible" benefits (money, fame, contracts, etc), and unfortunately, many people have a contrary thoughts for what I've wrote above.

Keep your creative works and wish you great luck and happiness in life.. :)

beijos

Monica Fontes disse...

Se eu, que não sou artista, ligo o "f***-se" com uma certa frequência, fico imaginando vcs... Hehe :)

Beijo! Adoro-te!

Fox`U-Skiter disse...

Acho q a opinião própria, em certos momentos, vale muito mais do que qualquer regra imposta pela sociedade... não sei se voc le todos os comentarios kiko mais, dou-lhe toda a razão, temos q ligar mesmo o fuck-they e fazer-mos oq gostamos, se não nos tornamos alienados e um ponto azul em uma sociedade azul. Não que devemos ignorar a sociedade o tempo todo mais ... usar "estribeiras" não nos levara a lugar algum, se não ao mesmo caminho de muitos...
Como voc disse na sua video aula...
" na verdade, temos que tirar um bom som da guitarra ". Não adianta nada voc fazer um solo superfodasticoniveldez se não tiver um intuito e uma idéia mais "profunda" mesmo que seja cavar, cavar e cavaar. Ser um menino propaganda hoje em dia, ja é necessario para se fazer sucesso, do bom moço, do simpatico e gente boa... mais será que estamos sendo nós mesmos com as atitudes impostas pela sociedade? será q aqueles q realmente queremos atingir estão sendo atingidos de forma positiva?
são muitas duvidas... qual a escolha certa, ser ou não um robo?
Só lhes digo uma coisa por experiencia própria.
Toda escolha tem uma consequencia, seja éla boa ou ruim.

@l_ucasl_ima

Susana disse...

Muito interessante!! Adoro seus textos e o modo como vc os escreve!! Se não te achasse um dos melhores guitarristas do mundo, com certeza vc seria um perfeito jornalista!!
Sou sua fã! Bjus ;)

Marcelo Nelvio disse...

Kiko , a alienação por ser o melhor transpassa a satisfação própria o bem estar consigo mesmo até mesmo os valores verdadeiros que são digeridos por novos valores impostos pela sociedade moderna de que usufrui de uma ferramenta amedrontadora que é a mídia.Belo texto.

Alemoa disse...

Sinceramente, acho que tu preenches todos os requisitos que citastes das obrigações de mercado. Parece-me também que atingiu esses requisitos por amor ao instrumento, e não como uma obrigação. Com certeza público e crítica te amam por seres assim.

Giovanni disse...

Disse tudo, Kiko!

Maíra Ribas disse...

Kiko,
Acho que tudo que eu gostaria de dizer já foi dito nos outros comentários.Mas,gostaria que você soubesse que tenho orgulho de saber que o cenário musical brasileiro tem um guitarrista como você!E foi um privilégio assisti-lo
tocando ao vivo!
Beijo.

Ana Clara Lima disse...

É verdade..o contemplativo anda subestimado. Mas a arte é diferente; o mundo dos negocios é (ou deveria ser) posterior à arte criada e não integrada no fazer artístico.
Mas ainda há um desequilibrio entre a parte de negocios e artística.
Muita gente ainda se concentra numa só e esquece a outra.

Bjss!!

Caroline disse...

Não somos perfeitos nem nunca seremos, como toda máquina nós falhamos tbm. Pra falar a verdade, a graça está exatamente nas imperfeições, a coisa toda perfeitinha não tem graça. É claro que existem coisas espetaculares que denominamos erroneamente de perfeitas, mas não que sejam
realmente, pois nada é perfeito!
Ligar um "F...-se" é a melhor coisa a se fazer.
Bjs