9 de maio de 2010

Criação Espontânea -Guitar Player

Criação Espontânea
De volta ao Brasil. Antes do final do ano, passei com o Angra por algumas interessantes cidades chilenas, como Santiago e Valparaíso, e depois seguimos para Buenos Aires. Quatro dias, quatro shows. Muitas horas tediosas em vans, aeroporto e hotéis, mas não troco isso por nada.
Quando o sono e o cansaço não te aprisionam, é possível usar esse período ocioso para o estudo. É pouco tempo que sobra e acredito que, para muitos guitarristas que estudam ou trabalham com outras coisas, o tempo para dedicar-se integralmente ao instrumento é ínfimo. Todavia, penso que constância é o fator mais importante no estudo. Do que vale estudar muitas horas por poucos dias da semana? É mais importante estudar  constantemente, diariamente, quantas horas forem possíveis, e deixar o cérebro adaptar-se. Informações novas devem ser assimiladas em doses pequenas e constantes. Por isso, tento estar sempre conectado a algum tipo de aprendizado e estudo, mesmo nessas confusas viagens.
Seguindo a sequência de pensamento do blog anterior, no qual retratei o estudo de jazz, falarei um pouco agora sobre improviso, a chamada criação espontânea. Para mim, o estudo do improviso é uma terapia, a busca de um tipo de liberdade musical. A verdadeira composição instantânea.
Ficam as perguntas: O que é isso? Como encontrá-la? Como desenvolvê-la e estudá-la? Sei que o assunto representa um lugar nebuloso na cabeça de muitos guitarristas – inclusive na minha –, mas é justamente por isso que sua discussão é sempre importante.
Meu álbum No Gravity tem como título essa sensação. O objetivo sublime de chegar ao nirvana musical, em que a realização de uma ideia no momento certo traz a sensação de graça alcançada. É um ponto que sempre almejo e um dos focos dos meus estudos.
Dentro de tantos assuntos relacionados à criação, uma das mais importantes barreiras a vencer é o medo do erro. E, de maneira mais abrangente, o real medo da música, ou seja, a timidez e inibição para arriscar, provar, tentar, experimentar...
Difícil é a tarefa de encarar a música como um jogo em que você não tem nada a perder ou ganhar. Basta, simplesmente, tocar o que você está apto no momento, sem intenções de agradar a ninguém, a não ser a si mesmo. Certa vez, Miles Davis disse algo mais ou menos assim: não tenha medo dos erros, pois eles não existem. Tudo é a forma como encaramos nossas tentativas desajeitadas. Se não as  assimilarmos, uma sequência maior de erros virá e, com isso, a inevitável insegurança. O erro é basicamente uma tentativa malsucedida que trará resultados extremamente favoráveis com o passar dos anos, pois é apenas com ele que a experiência virá.
O erro é a forma mais crua de aprendizado. É o necessário. É o outro lado da dialética. Desde a escola, somos repreendidos pelos erros que cometemos, mas, sem eles, o aprendizado não acontece, indubitavelmente. O julgamento sempre vem da experiência, mas a experiência vem dos erros e acertos. Não há como saltar etapas. Os erros que ocorrem por fatalidade podem ser a abertura a novos caminhos. Tudo é uma questão de como encará-los e utilizar sua força negativa como positiva.
Procure ouvir o disco A Love Supreme, de Jonh Coltrane, os álbuns-solo de Keith Jarrett e Virtuoso, de Joe Pass. Estes trabalhos são os mais puros exemplos do significado da improvisação.
- Abre-se 2010 e, como de praxe na agenda anual, arrumo as malas para o mais badalado evento do mercado de instrumentos: a NAMM. Na próxima edição, contarei os bastidores dessa feira de negócios, shows e apresentações que acontece na Califórnia.
Não deixe de visitar meu blog no site Guitar Player: http://kikoloureiro.guitarplayer.com.br. Você pode sugerir temas para esta coluna pelo e-mail info@kikoloureiro.com.br. Dúvidas e comentários são sempre bem-vindos. Siga-me também no Twitter: www.twitter.com/kikoloureiro

3 de maio de 2010

Improvisação- Blog Guitar Player

ESTUDANDO IMPROVISAÇÃO
Ainda no Velho Mundo, em meio a poltronas apertadas dos voos, palcos, culturas, línguas diferentes e muito tempo de espera. Horas e horas para percorrer Itália, França, Inglaterra, Alemanha e Finlândia. Aliás, o músico profissional deve primeiro aprender uma coisa: esperar. É o que mais fazemos nessa profissão. São horas de van, ônibus, avião, salas de embarque, check-ins, raio-x etc. Tudo isso para subir ao palco por 90 a 120 minutos. Tive de aprender a saber utilizar um pouco deste tempo. Nos dias livres, chamados universalmente de “day off”, tenho estudado guitarra, para variar... Escolhi passar algum tempo revendo standards de jazz e praticar improviso sobre essas harmonias ricas e desafiadoras. Por isso, imaginei ser um bom assunto para dividir neste blog.
Para os não simpatizantes do estilo, ressalto a importância desse estudo. Tomem-no como um remédio amargo, mas garanto que, em pouco tempo, revelará um mundo novo de possibilidades musicais. Assimilar e expandir.
A princípio, procure temas de poucos acordes ou baseados no blues. Acredito que estes não apresentarão dificuldades inibidoras ao iniciante. O ideal seria tocar com outros músicos, mas, na clausura dos quartos de hotéis, com o vento soprando a zero grau lá fora, eu sigo o seguinte método de estudo:
Escolho a música. Analiso a harmonia. Aprendo a melodia. Toco os acordes por algum tempo. Familiarizo-me com a forma e estrutura da música – geralmente, a forma padrão é AABA. Procuro improvisar um pouco, com ou sem metrônomo, experimentando os arpejos e escalas possíveis.
A partir deste ponto, é importante partir para a pesquisa. Ouvir! Afinal, pesquisa é parte fundamental do estudo, senão é só treinamento. Assimilar e expandir. Começo a ouvir gravações de diferentes intérpretes (o YouTube é ferramenta essencial nessa pesquisa). Escutar como uma versão de John Coltrane pode ser diferente de uma de Frank Sinatra, ou de Gonzalo Rubalcaba ou de Scott Henderson. Se possível, começo com a versão original. Depois, presto atenção nas alterações harmônicas, introduções, levadas diferentes e, principalmente, nos improvisos. É neste momento que cada músico expressa sua personalidade. O improviso é a voz do músico. Então, retorno para mais um pouco de improviso sozinho, procurando utilizar as novas ideias encontradas nos vídeos e gravações. Em seguida, é bom ter os famosos playbacks para simular uma futura situação real. Se você não tiver, grave a harmonia em um pedal de loop ou no computador. Varie o estudo entre ter e não ter a harmonia ao fundo. Isso proporcionará a consciência harmônica da música, além de sua estrutura e forma.
Não sou jazzista, mas creio que esse procedimento é uma boa prática. Depois, é tocar e tocar de verdade com outros músicos e desenvolver a linguagem.

No Reino Unido
Nesta mesma viagem à Europa, dei um pulo nos estúdios do Lick Library, a organização que criou o evento Guitar Idol. Nada como respirar o ar deste país, berço de tantos ícones do nosso instrumento e aprender um pouco mais com as pessoas que mantêm a aura límpida da tradição do rock inglês.

Não deixe de visitar meu blog no site Guitar Player: http://kikoloureiro.guitarplayer.com.br. Você pode sugerir temas para esta coluna pelo e-mail info@kikoloureiro.com.br. Dúvidas e comentários são sempre bem-vindos. Siga-me também no Twitter: www.twitter.com/kikoloureiro