18 de julho de 2010

BLog Guitar Player- RockHouse Methods Dvd





BLOG DO KIKO – Guitar Player

É comum aparecerem aquelas pequenas situações desconfortáveis na vida, nas quais,  depois que você está imerso, não resta alternativa além de encarar e tirar o melhor possível  proveito da experiência.
No começo de 2009, fui para Connecticut, Estados Unidos, a convite da empresa de livros, métodos e DVDs Rock House Methods. Essa empresa já existe há algum tempo, mas, de poucos anos para cá, tem focado sua estratégia em DVDs com guitarristas  mais novos que estão despontando no mercado internacional. Ao lado de Alexi Laiho (Children of Bodom), Gus G. (Ozzy Osbourne) e Marc Rizzo ( Soulfly), lá estou eu .
Quando recebi o convite, aceitei na hora. Considerando que já gravei cinco videoaulas aqui no Brasil – das quais, além de tocar, participei de todas as fases de elaboração, inclusive a produção –, eu me senti apto a gravar com os gringos sem o menor problema. Ofereceram-me quatro dias nas terras geladas de New Haven para criar o programa e três dias para gravar. Por estar confiante com minha experiência no Brasil, propus a possibilidade de gravar não apenas uma videoaula, mas quatro.
Não me pergunte por que falei quatro tendo apenas três dias para gravar. Creio que me empolguei na hora da decisão e convenci o produtor de que seria legal ter uma sobre fusion, outra sobre fraseado e, claro, uma sobre música brasileira e levadas adaptáveis no rock. A quarta teria que ser obrigatoriamente sobre técnica e rotina de estudo, a pedido deles. Portanto, saí com o desafio de gravar quatro programas longos e desafiadores em três dias e com apenas quatro dias para planejá-los.
Já aqui do Brasil, iniciei minhas anotações do que seria interessante mostrar. Criei o conceito para os programas ao meu modo. Porém, quando cheguei ao estúdio para discutir as ideias, vi que eles possuíam outra visão e a empresa tinha um estilo de didática próprio. Assim, tive de reorganizar tudo: quatro dias de 12 horas de trabalho insano sendo convencido e convencendo sobre ideais e caminhos didáticos.
Estar sozinho, com a guitarra na mão, em frente a uma câmera para falar e ensinar é uma das coisas mais difíceis e amedrontadoras. Tocar em um palco com outros músicos é mais tranquilo, pois a atenção está sempre dividida. Já o close no rosto e na mão é algo intimidador demais, um raio X musical. A execução deve tender à perfeição, afinal, o professor não pode vir com meias verdades. Além dessas dificuldades, o frio do inverno da Costa Leste americana não deu trégua nem dentro de um estúdio com lâmpadas e holofotes. Os tendões rígidos das minhas mãos eram motivo de chacota para os presentes atrás das câmeras, que, com suas mentes férteis, provavelmente me imaginavam à vontade no que talvez considerassem meu habitat natural: a Floresta Amazônica com água de coco, micos-leões, mulheres de tanga, tiros de metralhadora ao fundo e muito sol nas têmporas.
Como se não bastasse a não intimidade com a câmera, o frio, o tempo ínfimo, a abundância de informações para explicar e o alto padrão exigido pela empresa, o pior mesmo era fazer tudo isso em inglês. Correto, preciso e direto. Uma coisa é dialogar com alguém, mas é exponencialmente mais difícil falar sem interlocutor para um olho de vidro estóico e inanimado.
E pensar que a cada cinco minutos eu pensava em uma desculpa para fugir daquela situação. O tempo liquefez as dificuldades e cristalizou os resultados. As videoaulas  finalmente foram lançadas na NAMM 2010 e estão à venda pelo mundo inteiro. Todos estão contentes com o resultado  e os produtores, agora já amigos, sempre citam a fatídica semana de trabalho insano como exemplo para outros.