25 de novembro de 2010


GUITARRA PRESIDENCIAL

Em junho, recebi um convite mais que inusitado. Por telefone, perguntaram-me sobre minha vontade e disponibilidade de tocar para o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo sem saber exatamente o que era e quais as circunstâncias de tal apresentação, aceitei na hora, sem hesitar. Claro que com total consciência de que nosso “companheiro” não deve ser lá muito fã de arpejos com sweeps, blue note, padrões com palhetada alternada e outros itens característicos de nosso cardápio guitarrístico.

Em comemoração aos 30 anos do modelo Gol, a Volkswagen do Brasil desenvolveu a série Vintage. Esta linha, além da cor branca e faixa preta, ao melhor estilo dos carros dos anos 1970, vem com um amplificador acoplado no porta-malas e um suporte para guitarra. Para completar a ideia, a Tagima foi convidada para desenvolver uma guitarra nas mesmas cores, com visual vintage e logomarca da Volkswagen.

No dia 01 de junho, Lula faria uma visita à fábrica em São Bernardo do Campo (SP), ao lado de ministros, senadores, prefeitos, presidente da Volks, diretores, sindicalistas, comitiva estrangeira e diversos ilustres – todos com seus belos ternos, assessores com pranchetas na mão e gigantescos seguranças com seus pequenos fones em uma das orelhas.

Além do discurso para os metalúrgicos, a agenda do dia previa a recepção na fábrica e, então, a apresentação do Gol Vintage. Carro impecável, guitarra impecável. Faltava o piloto e, por isso, fui convidado. No dia anterior à apresentação, cheguei à Volks sem saber o que deveria tocar. Pensei no hino nacional à la Jimi Hendrix – ideia enfaticamente vetada pela comitiva presidencial. Depois, imaginei que um chorinho ou alguma música minha com uma levada bem brasileira funcionaria. Ao chegar ao local, descubro que, por um consenso entre a equipe e a comitiva presidencial, foi definida a canção Amigos para Sempre, por ser do gosto pessoal do presidente. Em minha opinião, a música não tinha nada a ver. Não é brasileira, tem uma melodia pegajosa, é lenta e enfadonha para a imagem de um carro com apelo esportivo e uma guitarra instalada.

Tocaria o que fosse preciso, mas a meta era tentar mudar esse quadro. Coloquei o playback da minha música Feijão de Corda (um baião de melodia bem simples) no som do carro e executei o tema principal. Convencer a galera do setor de desenvolvimento não foi difícil, afinal, eles criaram o conceito do carro e já sabiam que a melodia sonolenta de Amigos para Sempre não refletia o visual do carro. O próximo passo seria convencer o diretor de marketing da empresa, que já tinha sua cabeça feita em relação à música imortalizada por José Carreras. Ele ouviu as duas opções e saiu convencido de que o baião teria mais a ver com Lula e suas raízes. Horas depois, após inúmeras repetições e ensaios de como e quem dispararia o CD, quem abriria a porta do carro e todo o estudo necessário da movimentação ao lado do excelentíssimo presidente Lula durante o evento que aconteceria no dia seguinte, eis que chega o presidente alemão da Volks para colocar ordem na organização brasileira. Sem delongas, pediu para ouvir a música, afinal, a demonstração do carro seria algo muito importante na solene recepção. Um amontoado de ilustres engravatados, diretores e outras pessoas importantes em volta para saber o veredicto final da canção. Desconhecendo o ritmo nordestino, ele pergunta se Lula conheceria aquela música. Fui obrigado a responder que não e ver que a enfadonha melodia de Amigos para Sempre ganharia a batalha.

Mas o que fazer se acreditávamos que a tal música não tinha nada a ver? Bem, se queriam melodia conhecida, ritmo nordestino e agradar Lula, não me restou outra alternativa a não ser sugerir Asa Branca. Tiro certo. Todos ali presentes concordaram, mas a comitiva e o presidente da Volks já não estavam mais lá para assinar embaixo. Decidimos por nós mesmos e encaramos o dia da apresentação, mesmo com as folhinhas com a programação dizendo que um tal Kiko Loureiro, guitarrista, tocaria a música Amigos para Sempre. Na manhã seguinte, em meio à organização impecável, toquei a composição de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. O sorriso do nosso presidente selou a discussão.

12 de novembro de 2010


E DEPOIS DA GRAVAÇÃO?

Trabalho árduo, longo, extasiante e, quando pronto em mãos, dá-nos a sensação de alívio, de tarefa cumprida. Criar, compor, ensaiar, discutir, analisar, decidir, estruturar, gravar, mixar, masterizar. É o que fazemos de nossas ideias musicais. Agora finalizadas, transformadas em Aqua, o novo álbum do Angra.

Foram longos meses para não deixar escorrer entre os dedos nossas criações e lapidá-las para apresentar a todos. Quando pensamos que o trabalho esta concluído, é aí que aparece o lado mais difícil. O que fazer com esses 50 minutos de música? Claro, criar a capa e tirar fotos para um encarte bonito e de boa apresentação, que represente algo tão etéreo como a música. E depois? Com as faixas prontas e o encarte definido, inicia-se outra etapa. Uma fase intermediária que não é estúdio nem show. Como levar o trabalho gravado ao maior número de pessoas, para que se interessem em ouvir as novas músicas ao vivo?

No caso do Angra, lidamos com países de culturas diferentes, nos quais cada gravadora tem seu jeito próprio de criar a expectativa do lançamento – coordenar quando e como a capa e a primeira música serão divulgadas, qual a melhor data de lançamento do CD completo. E qual será o single? O japonês quer a música mais rápida. O alemão gosta da mais pesada. Já o brasileiro quer tudo, a rápida, a pesada e a balada de melodia cativante.

E temos ainda de driblar o efeito MP3 para que nada vaze antes da hora e destrua a expectativa, afinal, como disse o escritor Antoine de Saint-Exupéry, tudo fica melhor quando aguardamos algo por um determinado

tempo, pois a espera também é prazerosa e amplifica a emoção.

Incansáveis reuniões para definir caminhos de marketing e criar vontade nas pessoas de escutar o álbum. Como distribuir o álbum no Brasil, já que no exterior estamos bem assessorados com grandes gravadoras e aqui o território é enorme e eclético? Precisamos agendar pocket shows em megalojas, ações em rádios, viagens para divulgação, chats e bate-papos na internet, entrevistas coletivas e individuais. Dar prioridade para internet ou revistas de banca? Fotos exclusivas para algum veículo de mídia? Onde anunciar? Renegociação dos contratos do álbum, adiantamento dos royalties das gravadoras... Outro assunto importante: quem edita e recolhe os direitos autorais das músicas? Cada território no mundo tem sua própria e peculiar sociedade de autores e compositores.

E, antes disso, há a elaboração do ISRC, o DNA do álbum onde todas as informações oficiais da produção estão digitalmente registradas.

E a música propriamente dita, onde se encaixa nessa epopeia burocrática? Os ensaios devem ser multiplicados, para que as novas composições se agreguem às principais da carreira. Eu e Rafael Bittencourt devemos reaprender as músicas que acabamos de gravar, pois, como cada um registra uma faixa, temos de ensinar um ao outro como cada trecho foi exatamente tocado, para que a execução ao vivo fique fiel ao disco. Assim, precisamos realizar vários ensaios em dupla para treinar as partes antes de nos juntarmos à banda. São necessárias algumas adaptações e rearranjos para viabilizar as inúmeras guitarras gravadas reduzidas a duas no palco.

E, por falar em palco, temos também de remodelar o visual, decidir a arte de fundo e cenário. Além da arte em si, o peso, portabilidade, segurança e resistência são fatores importantes para um belo “backdrop”. Ainda existem as questões da iluminação, equipe técnica e equipamentos renovados para a turnê.

E, claro, não podemos nos esquecer da TV. Conversas e mais conversas para decidir como e quando será produzido um videoclipe e como criar pautas para que possamos estar em programas televisivos.

Nesse período de entressafra estúdio/shows, muitas coisas são preparadas e definidas. Cada vez mais fica provado que, em se tratando de expressão artística, carreira e desenvolvimento sólido da campanha de um novo álbum, a música é parte do todo, e não o todo absoluto.