15 de abril de 2011


“TRITURAR” É PRECISO, CRIAR NÃO É PRECISO?

“Best in Shred”. Traduzindo: “O melhor em triturar”. Se preferirem, abrasileirando a expressão: o melhor em esmerilhar, detonar, “fritar” ou seja qual for o verbo para aqueles que solam na velocidade da luz, com sweeps, tappings e palhetadas insanas. Após o psicodelismo dos anos 1960, a técnica e solos viajantes dos 70, os virtuosos neoclássicos dos 80 e os desleixados grunges dos 90, fiquei muito curioso com a competição Best in Shred, em pleno início de 2011, no estado americano berço de emblemáticos guitar heroes, a Califórnia. Que tipo de guitarrista espetacular estaria nesta final triunfante, que reuniria os seis melhores e mais rápidos gatilhos da seis-cordas, escolhidos em disputas estaduais por todo o território americano?

Fiquei honrado com o convite para ser um dos jurados da disputa, ao lado de Andy Timmons, Herman Lee (DragonForce), John 5 (Marilyn Manson), George Lynch (Lynch Mob) e Frank Bello (Anthrax). No melhor estilo Ídolos, presenciaríamos as performances dos seis finalistas, daríamos notas, comentaríamos positivamente ou negativamente e, ao final, chegaríamos ao consenso do melhor “triturador” de cordas dos EUA.

O evento aconteceu na loja Sam Ash, uma das maiores dos EUA, com direito a tapete vermelho, palco, P.A., luzes, MC e tudo a que se tem direito em um espetáculo com toda a pompa americana. E o melhor: um prêmio de 20 mil dólares em equipamentos ao vencedor e o convite para tocar com Steve Vai em um de seus shows.

Ao lado de guitarristas (Frank Bello era o único baixista) extremamente técnicos, mas que nunca deixaram de lado a música e a paixão por uma bela composição, lá estava eu para julgar outros colegas de instrumento. Vale lembrar que as apresentações deveriam ser feitas sobre uma base de alguma música de Steve Vai.

Colocar a música em formato de competição é um conceito completamente errado, uma visão deturpada da função da arte, mas é uma forma de estimular o estudo e a busca de aprimoramento na guitarra.

Agora, veja como foi difícil escolher. O primeiro a subir no palco, um deficiente visual, tocou perfeitamente o tema de Vai, acertando os arpejos e slides pelo braço inteiro. O segundo se enrolou todo com sua pedaleira e, devido a pedidos, recebeu uma segunda chance, mas continuou se enrolando com a pedaleira, apesar da execução perfeita. O terceiro, mais novo de todos, não apenas tocou as notas de Vai como tinha a mesma guitarra, fazia os mesmos truques e as caras e bocas que só Vai é capaz de fazer. Um verdadeiro clone do astro, mas de cabelo “jogadinho” à la Justin Bieber. O quarto, também por volta dos 17 anos, com uma postura mais thrash metal, piercings e afins, também executou muito bem a música, mesmo que um pouco mais sujo. O quinto, um novaiorquino perto dos 40 anos e com a balança com certeza passando dos 100 quilos, tocou com perfeição. Empolgado com a molecada, jogou-se no chão e realizou um espetáculo à parte, que ninguém da plateia imaginaria em se tratando de uma pessoa tão volumosa. Tocou de sorriso aberto, mesmo quando seu sistema sem fio o trapaceou e comeu o sinal da guitarra por algumas vezes. O último, bem diferente dos outros, com uma pinta meio Slash meio Ben Harper, tocou com uma tranquilidade e sutileza únicas, e as notas estavam todas lá, as mesmas de Vai.

Nós, jurados, fomos para uma salinha discutir o ganhador. Como escolher entre seis músicos que executaram músicas exatamente como o original? Com muita dúvida, foi escolhido o novaiorquino, que conquistou a todos com sua simpatia e presença de espírito, mesmo com problemas técnicos. O segundo colocado foi o Slash/Ben Harper, por sua tranquilidade.

Durante as apresentações, fiquei esperando alguém que, além de “triturar” escalas e arpejos, criasse uma nova composição sobre a base de Vai. Todos se preocuparam com a imitação. Ninguém improvisou, compôs uma nova melodia, criou uma música a partir da base sugerida. É o que tentam nos ensinar na infância ao fazermos as redações em sala de aula. Sai na frente quem ousar e criar sobre o tema dado. A técnica faz parte do meio e não da mensagem em si. Quem soubesse disso naquela noite teria ganho por unanimidade.

10 comentários:

Anônimo disse...

Criatividade e personalidade são o diferencial do artista. Mas deve ser difícil improvisar diante de um monte de caras "fera"!

E.duardo disse...

Não sou de contra o brasil mas tb não levo a sério, mas nesse comentário o brsil teve uma espressão boaaa rsr !!!!!!

Flávia Viégas disse...

Imagino como deve ter sido difícil pra você escolher entre vários candidatos bons e ter que levar em consideração também a opinião de outros consagrados guitarristas.... mas a vida é assim... Hunters or Prey... Beijos e sucesso sempre... Flávia.

Lelo Mendes disse...

Muito bom post e super "realístico"... Em detrimento dos espelhos e do anseio por tocar como "fulano", esquece-se de que cada um é único na face da terra. A identidade se perde e muitos, inclusive professores, acabam na mesmície e limitando, além de si, o aluno. Ser referência é um marco. Ter referência pode até ser uma meta ou objetivo inicial. Mas viver na estagnação, principalmente na arte, é retomar o parnasianismo poético e aplicá-lo na música. "A arte pela arte" não serve. Criar, ter felling e expressar o que cada composição transmite é ser transcedental ao que é óbvio ao olhar humano: "o essencial é invisível aos olhos". Enquanto nos atemos às cópias e não ousarmos ir além, explicitar o que se sente, seremos como "toca cd's" transformando-se em "vitrolas".
Paz e bem!
ótimo post, kiko! sucesso sempre!

HUDSON VIANA PERES disse...

simplismente perfeito Kiko vc me orgulha como brasileiro vc merece isso e muito mais parabéns cara!
que Deus te abençõe sempre de seu grande fã HUDSON!

internetfull disse...

pow kara.....muito show essa história...virei seu fã quando toquei "No Gravity" no Guitar Hero Brazukas....que notas lindas....

parabens pelo sucesso kara...vc merece!

=D

Mundo da Musica disse...

Falo tudo! mostrar um pouco da sua visão sobre a musica do Vai né?!
gostei muito do post!

Mundo da Musica disse...

Falo tudo! Mostrar um pouco da sua visão na musica do vai!
muito bom o post!
abraços
Ricardo Mattos

Daniel Ahid disse...

Seria legal ouvir tais finalistas!
Possível?
Abraçãoo!

Joni Aguirre disse...

Kiko, me gusto mucho tu relato
y es verdad, hay muchos buenos guitarristas que no son mas que imitadores (hablando en el ambito amateur). creo que va mas alla de la imitacion, es improvisar, crear tecnicas nuevas, tener personalidad entre otras cosas!
Saludos!