5 de maio de 2011



LE TEMPS N’EXIST PAS

A discussão é relevante. Existe ou não a linha do tempo? Outras dimensões, dilatação do tempo, relatividade, teoria das cordas... Física moderna, filosofia ou religião, pouco importa onde encontra-se a resposta. O fato é que uma turnê do Angra na Europa, mais uma entre as incontáveis ao longo de 16 anos, excita pensamentos dessa natureza.

Acordo, saio do tour bus já estacionado na frente da casa de show e logo me deparo com um poster do Angra no L’Olympic, em Nantes, França, anunciando a nossa chegada. Sorrio, ainda sonolento, pois os dizeres sinalizam espaço-tempo. Adentro os corredores forrados com outros pôsteres e vejo mais uma vez o Angra no L’Olympic, em 17 de janeiro 1999. Ao meu redor, reconheço o local e, agora, talvez já em outra dimensão, reparo nos outros pôsteres com nomes de bandas que surgiram e se foram meteoricamente, outras que cresceram e ainda estão na ativa e também aquelas que se separaram depois de uma longa estrada, deixando boas memórias. Uma sensação de olhar lápides em um cemitério, com nomes de família e datas que nos transportam a outros tempos.

Em Lyon, recém-chegado ao bar da casa de show, peço um café ao cozinheiro. Simpaticamente, ele responde que preparou o café mais forte desta vez, pois antes eu havia comentado que o café brasileiro era melhor. Antes quando? Em 1996 ou em 2006? Vai ver o cozinheiro veio da outra dimensão “jusqu’à côte” para me agradar. Ele devia estar sempre lá, “just’ao lado”, a observar. Acabei derrubando o café sobre o baixista Felipe Andreoli.

Em Lille, sob os olhos atentos de uma figura familiar posicionada na primeira fila da plateia, toco os primeiros acordes de Carolina IV, música que nos fez conhecidos na França. Essa peça tem um pouco de tudo – ritmos afro-brasileiros, guitarras pesadas inglesas, melodias sofisticadas francesas e coros em português – e é apreciada por olhos familiares, nada muito diferente de outros momentos, há quatro, dez ou 16 anos. Talvez até mesmo nada muito diferente das festas exóticas, com índios vestidos à la Luís XIV, feitas para os nobres europeus no século 17, saciando a sede do colonizador pelo diferente. A figura da primeira fila me transporta mais uma vez para a dimensão vizinha. Reconheço a jaqueta de couro, que brilha como nova, com a pintura do disco Angels Cry nas costas, divinamente preparada por ele mesmo para o nosso debute europeu, em 1995. Porém, noto o cavanhaque grisalho.

O D mixolídio com quarta aumentada de Carolina IV, a jaqueta, o cavanhaque, o poster e o café bem passado são mais rápidos que a luz. Transportam-me ao passado-futuro em um passeio real e atemporal.

O tempo, sem forças, não existe mais, curva-se para dentro e torna-se um simples ponto à mercê apenas da minha universalmente infinita paixão pela música.

30 comentários:

Antônio disse...

me arrepiei só de ler.
que carreira cara....

Dmitry disse...

Só de ouvir nomes de álbuns e músicas do Angra, também fico numa trip nostálgica... Acho que não precisaram criar a máquina do tempo, pois nós mesmos a possuímos. Quando seguramos um objeto, visitamos novamente outros lugares, ou admiramos uma foto, estamos numa conexão psicodélica com o passado. Ao mesmo tempo, estamos editando uma nova memória que um dia será nostalgiada no futuro! Os Déjà vu's da vida certamente são bem parecidos com tais sentimentos, porém mais misteriosos. Seriam eles um café forte brasileiro derramado na máquina do tempo?

Lina M. Parra Ante disse...

Hermosamente escrito. Interesting and yet sensitive.Gracias por compartir.

Tkm disse...

Parabéns pela longevidade e sucesso. Com certeza muito batalhados e merecidos!

olavo disse...

Have you ever felt, the future is the past, but you don't know how...? Dream of mirrors

olavo disse...

Have you ever felt, the future is the past, but you don't know how...? Dream of mirrors

Anônimo disse...

Me sinto assim também, só que em uma área de atuação diferente (engenharia).

Tudo parece uma releitura nostálgica daquilo que já foi vivido e no fim o que realmente importa é o objeto da sua paixão.
Tem gente que coloca esse sentimento em pessoas ou bens materiais, mas isso só leva a ilusões. Não há nada mais gratificante do que amar o trabalho.

Carol

Ricardo Siqueira disse...

The Big Bang Theory versão Heavy Metal

Queremos falar de música! disse...

Eu amei esse artigo! Não sei quantas vezes eu li na GP rsrs
Imagino que ao longo da estrada ficaram muitas memórias e 'reviver' tudo isso é realmente incrível...e vemos também o quanto mudamos e como o tempo passou rápido.
;*
Marina

Lucas disse...

Valeu o post Kiko, mto legal essa coisa do tempo... realmente algo que transcende a compreensão.
Hj estava ouvindo Holy Live, e cara, q solo é aquele... tanto o seu quanto o do Rafael, uma sinergia mto legal, nos leva a outro tempo-espaço tb. Gostaria q vcs fizessem outro registro ao vivo em breve.
Abraço

Alden disse...

Engraçado eu estar pensando em algo parecido hoje enquanto assistia o Dvd Rebirth World Tour Live in Sp do Angra... Coincidências certamente não existem. Excelente texto.

mariana ruiz disse...

Teu post me fez lembrar desta música:
"Caminante son tus huellas el camino y nada más;
Caminante, no hay camino se hace camino al andar.
Al andar se hace camino
Y al volver la vista atrás
Se ve la senda que nunca
Se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino sino estelas en la mar....."

Marcos Paulo Nunes disse...

Nossa! Esse texto me fez lembrar dos momentos exatos em que saíram os álbuns do Angra, das primeiras impressões ouvindo os discos com os amigos e tudo. E de quanto eles foram importantes pra minha formação não só como músico, mas como pessoa mesmo. Muito legal!!!

HUDSON VIANA PERES disse...

grande Kiko, cada dia que passa te admiro mais como músico, como pessoa o que tenho a dizer é muito obrigado pelas coisas que vc faz e produz no cenário guitarrístico mundial, muita paz, saúde e mais sucesso na sua carreira brilhante vc é minha grande inspiração!!

grande abraço cara do amigo
HUDSON VIANA

Alessandro Plothow disse...

Muito bem escrito! Mostra como guitarristas e músicos em geral passeam por várias vertentes da arte!

álvaro sales disse...

Isso só faz nos orgulharmos ainda
mais deste mestre da guitarra.

renan disse...

Ótimo Artigo. Leia um pouco da obra de Schopenhauer, caso já não tenha lido.

Caio disse...

Meu deus cara esse foi de longe o seu melhor post!
Incrivel a maneira como você descreve esses anos, é muito bom saber que o Angra representa tão bem o Brasil la fora, muito bom saber que músicos exelente vocês se tornaram depois tanto tempo, esse post foi uma nostalgia positiva tanto para mim como fã e para você como idolo tenho certeza!
Fica aqui meu grande abraço para você e para todos do Angra.

Flávia Viégas disse...

Excelente seu post Kiko, menos a parte do café no Felipe, coitado... hehehe....... Agora fico pensando com meus botões, se a nostalgia transcende tanto ao passado, o meu presente se torna nostálgico... pois não passo um dia sem ouvir os cds do Angra....Beijos e sucesso sempre! Flávia.

Lelo Mendes disse...

Fato!
Hegel descreveu do Tempo de uma maneira peculiar. Ante as vertentes, novas "virtudes", marcos históricos que ainda nos são contemporâneos, vivemos um verdadeiro álbum "live" de fotografias. No "hoje", permitimos desperceber tudo, absolutamente, ao nosso redor, fitando o olhar naquilo que nos é mais próximo, pertinente no dado momento. Vivemos e não nos apegamos a muitas coisas, pois muitas coisas estão por vir, isto quanto não se permite insapiência. Sim, há muito por vir. Caminhamos, vivenciamos, destruimo-nos inúmeras e infindáveis vezes, mas lá sempre estaremos... onde?! Bem aqui... "mas não era 'lá'?!" Talvez seja aqui mesmo.
Somos feito árvores, cujas folhas caem e se tornam húmus, alimentando o solo, tornando-o fértil aos que chegarão. Em tudo há um quê de nós, pois nós somos, além de nós mesmos, um quê de outrem que passara marcantemente (ou não tão necessariamente) em nossas vidas, logo, ininterruptos. Eis o tempo.

Muito bom poder participar do "kiko historiador de si".
Deus te abençoe, cara.
Paz e bem!
bom post.

Elaine Candeas disse...

OI...TÔ COM PREGUIÇA DE ESCREVER....FICOU BOM!

Palco Mundi disse...

Muito legal.
Me bate uma grande nostalgia quando escuto o Holy Land. Já na intro me voltam boas memórias de 1996.

Valeu!
PalcoMundi.blogspot.com

Mariza disse...

O tempo se personifica entre nossas melhores lembranças e nossos maiores sonhos ( estejam eles realizados ou não).
Só mesmo a paixão pela música permite que a barreira do tempo seja transcendida,nos projetando para lugares que até nós mesmos desconhecemos.

Luís Felipe disse...

Acho muito bom seus posts no blog contando histórias sobre as turnês!!Leio sempre muito interessantes memso!!

mari de moura disse...

Caramba Kiko!
Voce se expressa tão bem que eu voltei nesse passado com vc,sem te-lo vivido.
Passou tdo como um filme,meio nostálgico e até tb um pouco engraçado com o lance do café.
Tdos nos escrevemos a nossas histórias, e a sua, digo assim de passagem,é uma das mais lindas e que eu me sinto nela e acho super profunda e bem vivida,com tantos detalhes e emoções.
Parabéns pela sua linda carreira e pela linda pessoa que vc é.
Continue sendo assim:essência,não apenas aparência.Bejoss
Sempre fan,<>mari.'-'

Caroline disse...

Amei o post!!! Acho q td mundo ja passou por isso algum dia...sempre que ouço o album rebirth tenho uma nostalgia da epoca em que comecei a curtir Angra...simplesmente demais!!

Abraços...

Tocar Violão disse...

Bem interessante o texto.

Elis disse...

Mais um ano hein querido!!!!
Parabéns...
Mtas felicidades!!!!
Que nesse ano que está por vir seja repleto de realizaçõs, sucesso, com mta paz, amor e saúde!!!!
Te admiro demais
e que vc tenha um dia muitooooooooo especial
grande bjo
Elis

Paulo H. Järdim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo H. Järdim disse...

Li sua nota por acaso e gostei do final: " O tempo, sem forças, não existe mais, curva-se para dentro e torna-se um simples ponto à mercê apenas da minha universalmente infinita paixão pela música."
Um viva à nossa capacidade de traços mnemônicos; à nossa memória por permitir essa viagem ao passado e até de projeções futuras...c'est la vie!