11 de outubro de 2011

EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE.

EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE

Não sei ao certo como o inconsciente coletivo analisado por Carl Jung atua em relação à música. Os arquétipos, os traços que povoam o nosso inconsciente e as imagens e símbolos jungianos podem ser musicais, também. Deixemos a profundidade do assunto aos psicólogos, mas a percepção de que existem lugares comuns a todos e lugares únicos dentro de nós é importante em nossa formação.

Consonâncias e dissonâncias colocadas em certas sequências agradam a muitos e nos conectam a um mesmo ponto. Alguns artistas dominam isso ao longo da carreira, encontram o ponto de equilíbrio entre a erudição, as surpresas e os lugares de conforto e, assim, criam canções que sobrevivem ao longo dos anos. Outros descobrem a chave para entrar nesse inconsciente coletivo uma vez na vida e depois não a encontram mais, pois essa descoberta nem sempre é algo claro e racional.

Estou aqui em Siracusa, Sicília, sul da Itália, ao lado do incrível Allan Holdsworth, guitarrista que influenciou gerações devido a sua expressividade singular e enigmática forma de tocar. Junto com o guitarrista holandês Richard Hallebeek, nós três iremos lecionar em um campus de verão.

Esse contato próximo com Holdsworth me deixou intrigado com a questão da identidade. Ele é um exemplo de ser não convencional. Conversamos muito sobre o assunto, mas ele, reticente, diz não saber explicar o porquê e de onde nascem as ideias. Se a música é algo etéreo, porque deveria haver uma explicação formal e científica? Podemos encara-lá apenas como sensações. Para criar a tal identidade, devemos encontrar o equilíbrio entre os lugares comuns e os lugares únicos que escondem- se dentro de nós. Como fazer para achar o ponto que agrade a você e aos outros, o que é consonante ou dissonante para você ou para os outros. Allan encontrou sua forma, que é algo totalmente peculiar, de beleza estranha, e transmite sensações e caminhos jamais visitados pelo nosso cérebro, mas que, de alguma forma, está lá no dele e Holdsworth, magistralmente, consegue transportá-los para sua música e, consequentemente, para nós. Nossa formação como músicos deve estar baseada principalmente na preocupação em moldar uma identidade. Desde o começo, o ideal seria que uma personalidade própria fosse o foco principal. Devemos descobrir qual peso nós damos às dicotomias com que nos deparamos enquanto músicos: intuitivo versus racional, consonante versus dissonante, lugares comuns versus o inusitado. Descobrir o que nos agrada primordialmente, o que imaginamos ser, o que reflete nossa vontade artística. Esses pontos são fundamentais para nos direcionar a uma identidade própria. A música coletiva de um povo, a música étnica popular do nosso país, também deve ter um papel essencial nessa formação de personalidade. É nela que sua origem será impressa. Se a música é um universo, é fundamental que sua localização seja ressaltada.

Postas todas essas variantes na mesa, a sua conexão com a música será cada vez mais verdadeira e pura. A arte que está dentro de você será nada mais que o reflexo do que você é – seu consciente, inconsciente pessoal e coletivo.

Kiko Loureiro

Matéria da Revista Guitar Player



15 comentários:

Anônimo disse...

Muito foda Kiko !

@carlinhossant0s disse...

cara tu toca mto virei teu fã quando eu ouvi a música dilemma parabéns e queria q vc me passasse umas distorções pro seu pedal g1k tem como?
segue meu e-mail
carlinhos_angra12@hotmail.com
desde já agradeço por ter me influenciado
vlw abraços

@carlinhossant0s disse...

cara tu toca mto virei teu fã quando eu ouvi a música dilemma parabéns e queria q vc me passasse umas distorções pro seu pedal g1k tem como?
segue meu e-mail
carlinhos_angra12@hotmail.com
desde já agradeço por ter me influenciado
vlw abraços

Anônimo disse...

Realmente, a imagem que os músicos criam de si, pode refletir o seu futuro artístico...
Eu sempre procurei me espelhar em guitarristas, me espelhei muito em Kiko Loureiro, principalmente na palhetada, mas sei que o meu estilo, minha forma de tocar, meu modo de me vestir, minhas musicas, devem ser únicas, nunca visto antes, é lamentável ver os plágios brasileiros.
Muito bom o texto!

Mervane disse...

Parabéns, seus posts sempre são interessantes de ler.

Everardo de Oliveira disse...

De fato, me parece que afirmar a influência de um lugar -geograficamente falando- no espirito do artista pode servir como um limite para a criacao. O inconsciente, portanto, deve servir como o impulso, que não pode ser determinado pela linguagem,mas que por suas vez aquilo que nos leva ao criar. Talvez seja essa a graça da arte,Kiko: Não permitir que o racional a 'pegue'como alguns pretendem. Abraçao.

@vevasalves

Alan disse...

É interessante como atualmente constatamos uma avalanche de músicos apenas reproduzindo obras e se preocupando mais em parecer com alguém, uma cópia, cover caça-níquel, ao invés de buscarem suas próprias identidades.

Fernanda disse...

Uma visão muito sábia da sua parte, Kiko. Visão esta, que muitos não têm. Isso mostra o quão profissional/apaixonado você é.
Realmente muito bom! =)

Cássia Tavares disse...

Ótimo texto!A música assim como todas as artes não se restringe à técnica, trata-se de uma libertação dos contrastes internos do músico...

Enes Gomes Produções disse...

Kiko, não consigo comentar nada sem antes parabenizar pela sua carreira, pelas suas conquistas e porque a sua música (no angra e nos projetos paralelos) me conquistou! A sua história me dá coragem pra escrever a minha.

Cara, no quesito identidade eu penso no angra como referência. Pra mim é incrível a originalidade de de algumas músicas, muitas bandas têm músicas parecidas (como se seguissem uma receita de bolo), mas o angra tem um tempero muito marcante. Eu não sei explicar, mas eu sinto um gosto extremamente único em "Sprouts Of Time" e "Carolina IV". E eu sinto um certo orgulho pela mistura de ritmos, sinto como se eu fizesse parte disso tudo. Eu, se tivesse a mesma chance, conversaria com você sobre a construção da sua identidade musical, que é tão virtuosa e tão simples (como "Mundo verde"), assim como você fez com o Allan. Grande Abraço! Parabéns papai!

Ana Clara Lima disse...

Muito bacana sua visão Kiko.
Muitas dessas decisões para encontro do equilíbrio são difíceis de tomar, mas o importante é tomá-las e botar a música para fora.
Quanto à questão intuitivo X racional, acho que isso só deixa de ser uma briga interna e se torna natural mesmo num estágio amadurecido e seguro na vida do músico.

Bjss!

Nina Xavier disse...

Nossa, acho que hoje em dia, as pessoas não tem mais essa identidade musical, nem se preocupam em ter, vejo apenas pessoas que se importam com o comercial, sem se preocupar com o ter daquilo que passa para o público, sem se importar com a arte ou o que aquela obra vai deixar para posteridade...
Parabéns, gosto muito do seu trabalho.

Alucard disse...

Não há que falar em identidade musical sem aludir ao status quo do cenário artístico. Há limites cada vez menos vencíveis acerca da escolha de um caminho autêntico ou comercial (entenda-se como mais rentável). Todos os ramos da arte estão contaminados pelo ideal capitalista que contribui cada vez mais para a falta de autenticidade. Aliás, esta autenticidade também é um termo que possui sua subjetividade, pois angariar trechos musicais de um consenso (i.e. harmonia característica de certa localidade) ou de outrem concorre para a consolidação de uma autenticidade parcial, mas que não deixa de ser uma autenticidade. Seria até utópico pensar em uma completa autenticidade: um musicista cuja integridade de sua sapiência musical tivesse sido aprendida, unicamente, por si! Esta autenticidade catártica não procede na contemporaneidade, no entanto, referi-me aos níveis de autenticidade parcial a que certas pessoas conseguem chegar. Níveis cada vez menores, com a parcialidade do usual somada na falta de rigor artístico (em promoção ao rigor replicatório), na ânsia pela grande aceitação, pelo pecuniário... Ora, poderíamos imaginar inúmeras circunstâncias para tal, como a precariedade educacional, a falta de condições físicas... Etc. Mas, é certo que não é sábio seguir uma visão bitolada como esta, mas sim uma visão holística que no intelige acerca da multicausalidade para a nossa assunção como nós mesmos. Somos produto de nossas escolhas, que, por sua vez, são consolidadas na reflexão (consciente ou inconsciente) sobre a apresentação do meio! Assim, a parcela do meio continua, cada vez mais, não estando aquém da manifestação de uma arte pura; o que faz com que esta arte, que tanto estimamos, não pare de se perder na moda, na preguiça, na superficialidade, na ignorância...

Saudações àquele que expressa com maestria sua conspícua autenticidade parcial na música, derrocando os reptos intrínsecos ao seu caminho!

Amplexos fraternos, Kiko Loureiro!

Aryane disse...

Ótimo texto! A relação que você fez com o Jung também ficou muito boa, parabéns!!


OBS: Amei a foto da sua filha

Verdadeiros Adoradores disse...

kiko loureiro,vc toca demais cara eu nao sou sua fa,mais te admiro muito.sou guitarrista de uma banda e queria que vc desse uma olhadinha aqui o link:http://musicalverdadeirosadoradores.blogspot.com/