31 de março de 2011


“FEITIÇO DO TEMPO” NA ITÁLIA

A única forma de nos aprimorarmos é a vivência musical constante. Somos seres que aprendem por repetição. Estudos diários por horas a fio e ensaios incessantes são mais do que necessários, mas a realidade do palco ou de um estúdio é infinitamente cruel, pois muitas vezes ignora a dedicação desse treinamento solitário. Para uma evolução plena, as experiências de gravações e shows também precisam ser vividas de forma assídua. Se quiser ter uma boa performance, você deve se apresentar; se quiser gravar bem, tem de gravar. Sempre.

No final de 2010, passei por uma experiência – já vivida inúmeras vezes por mim com o Angra – que comprova o que escrevi no parágrafo anterior: uma turnê europeia. Desta vez, foi com meu trabalho-solo, Fullblast, em oito shows na Itália. Além de mim, o quarteto era composto por Felipe Andreoli (baixo), Marcell Cardoso (bateria) e Maria Ilmoniemi (teclados).

Foram apertados dez dias na Itália: um para chegar, oito shows em oito dias, sem pausa alguma, e o dia final para voltar. É o conceito “gringo” de turnê – a única forma de exercitar com veracidade os shows contínuos, que nos proporcionam aperfeiçoamento musical.

No Brasil, as apresentações possuem uma dinâmica própria. Nos fins de semana, é hábito os pinga-pingas de voos neste país continental. Assim, cada performance tem incontáveis horas de preparo e de viagem, traslados, táxis, vans, check-ins e check-outs. Os shows são sempre marcados sem qualquer planejamento, ignorando as distâncias deste imenso Brasil. Não criamos até hoje um senso de turnê, de sequencia, de shows próximos, que otimizaria tempo e esforço e, acima de tudo, resultaria em ganho na qualidade musical, com correção imediata dos erros e segurança na performance.

Aterrissamos em Nápoles à meia-noite do dia anterior ao show. Na tarde do dia da apresentação, rumo à casa de show, conhecemos o roadie, motorista, faz-tudo, ótimo fotógrafo e, como bom napolitano, bom de garfo. Junto com ele estava o promotor/tour manager. Tudo pronto.

Como no filme Feitiço do Tempo (Groundhog Day), todos os dias foram exatamente iguais e tudo se repetiu como se fosse dada uma outra chance para você se aprimorar em relação ao dia anterior. Foi assim: após o café da manhã, nos encolhemos na van, sob o frio do inverno europeu, e seguimos para a cidade seguinte, com direito a parada para almoço na cadeia de restaurantes Auto-Grill, que insistiu por oito dias em nos negar a tradicional culinária italiana; após algumas horas, ao chegarmos à cidade seguinte, despejamos mala e corpo por míseros 60 minutos em algum albergue italiano e nos dirigimos para a montagem de equipamento e passagem de som; em seguida, na melhor hora do dia, o jantar vinha como um banquete e, aí sim, descobrimos o legado do Império Romano e nos rendemos às conquistas de suas cantinas pelo mundo afora; quando sem forças para uma última garfada, era hora de subir ao palco e espalhar notas ao festivo público italiano; ao final, desmontamos tudo e rumamos ao amistoso encontro com os fãs, com os quais conversamos com um precário italiano aportuguesado (mas melhor que de novela...); depois, novamente nos encolhemos na van e retornamos ao hotel; no dia seguinte, tudo se repetia.

Este roteiro ocorreu em Nápoles, Roma, Pisa, Scandiano, Turim, Udine, Schio e Milão, mas, em alguns momentos, conseguimos quebrar a rotina para posar em frente à Torre de Pisa ou no Palácio de Caserta.

Apesar de parecerem cansativas, essas turnês são as melhores lembranças na carreira de um músico. São dias intensos, nos quais o aprimoramento aparece com força enorme. O contato com os fãs, os lugares novos e as culturas diferentes nos deixam dependentes da vida na estrada.

22 de março de 2011


ÁSIA: DESCOBERTAS E APRENDIZADOS (PARTE 2)

Recém-chegado de uma turnê na Itália, que será tema de um próximo blog, continuo aqui descrevendo minhas aventuras na Ásia, conforme prometido na edição anterior.

Depois do Loud Park Festival, no Japão, o Angra foi a Taiwan para mais um concerto. Depois, segui sozinho, para realizar workshops em uma turnê repleta de descobertas.Viagens distantes sempre comprovam que o mundo da guitarra é muito semelhante e homogêneo, independentemente da etnia. Por isso, tocar ritmos brasileiros, músicas técnicas e melodias claras e bonitas na guitarra cativa o público seja onde for. Não há segredos. E assim fui eu me apresentar em lugares exóticos e desconhecidos do outro lado do mundo.

O workshop de Taiwan foi em uma praça ao ar livre, o que proporcionou a aproximação de transeuntes curiosos, que misturaram-se aos fanáticos pela seis-cordas. No dia seguinte, um longo voo para a Tailândia, na esperança de um dia sem compromissos para descansar. Mas eu já deveria ter aprendido que nessas viagens não existe dia livre e, caso haja um dia sem apresentação, pode-se esperar uma avalanche de entrevistas, visitas, fotos e jantares exóticos na agenda. E assim foi. Do aeroporto, levaram-me direto para uma conferência com revistas e programas de TV. Nesse país tão distante e diferente do nosso – apesar de similar quanto às mazelas e choques sociais –, chamam a atenção os táxis rosa e uma crendice existente entre as cores e os dias da semana.

O dia seguinte mais uma vez era livre, mas ninguém avisou que o “pinga-pinga” de aeronaves demoraria mais de dez horas. E lá se foi mais um dia de descanso. Cheguei à China moderna, do BRIC, a segunda potência econômica mundial, com o comunismo oculto pelos arranha-céus dos bancos internacionais. Não vi a muralha, mas vi rato em conserva, sopa de cobra, larvas, pombas e o que você possa imaginar. Uma aventura à la Discovery Channel nos workshops em Kumin, Guangzhou e Chengdu. Uma galera muito curiosa, tendo um contato recente com a música ocidental de guitarra e seus guitar heroes. Saindo da China, minha última parada foi a Indonésia. Tive o prazer de pisar em Sumatra, território que, em minha adolescência, conquistei tantas vezes no WAR. Nos poucos dias que estive lá, ocorreu tsunami, terremoto e erupção vulcânica. Somos realmente privilegiados pelo país que temos. Em Yogjakarta e Medan, os workshops foram gigantes e impressionantemente bem organizados, com público beirando as mil pessoas. Experiência inesquecível e tratamento de rei.

Dentre tantos acontecimentos especiais e diferentes, proporcionados por culturas tão diversas, não há como não tentar compreender o comportamento sócio-cultural e seus desdobramentos na economia e no bem-estar de cada pessoa que conheci e comparar com o nosso. Somos países semelhantes no que tange à economia emergente. Sabemos que o Brasil terá um futuro próximo promissor, mas o que mais me chamou a atenção é quanto os asiáticos planejam, organizam e discutem antecipadamente cada etapa que desejam realizar. Os eventos dos quais participei estavam sempre milimetricamente calculados e discutidos. Assim, o desenvolvimento caminha a passos largos, precisos e definitivos. Será que somos assim também? Minha vivência diz que estamos longe. Fiquei com a certeza de que colheremos frutos amargos por não sermos assim no tão propagandeado Brasil do futuro.