22 de junho de 2011


COM BRILHO NOS OLHOS

Em meio à absoluta maioria masculina de cabeludos, tatuados e barbudos, com suas correntes e piercings, lá estava uma loira reluzente de roupa de couro, simpatia no rosto e olhos vidrados no que eu tocava. Pode não parecer muito sincero de minha parte, mas ela me chamou a atenção não pela cor do batom, mas, sim, por conhecer todas as minhas músicas de cor e balançar o pescoço com empolgação singular.

Nos corredores da NAMM, feira de instrumentos na Califórnia, em janeiro deste ano, noto sua presença mais uma vez e minha curiosidade se torna ainda mais aguçada pelo fato de ela estar com um laptop aberto em mãos, com a imagem do ícone virtuoso dos anos 1980 Jason Becker. Não me contenho em me aproximar para tentar entender o propósito da loira com aquele computador em punhos, quando percebo que o próprio Becker está ali, vivo, porém estático, utilizando apenas os movimentos da íris dos olhos para me dizer: “Oi, Kiko, tudo bem?” Os olhos continuam a se mover e um interlocutor do outro lado do Skype traduz para meus ouvidos belas palavras de elogios e real conhecimento do meu trabalho. Sou envolvido por uma sensação incrível de empatia e agradecimento naquele contato, mesmo que apenas olho a olho, originada por alguém que já foi uma referência musical para mim e hoje é uma referência humana para todos que conhecem sua história.

Prodígio, Jason Becker gravou seu primeiro álbum aos 16 anos e, com seu incrível talento, logo alcançou o status de um dos grandes guitarristas do planeta. Eu tinha 15 anos e ele me fez repensar meu estudo, pois percebi que não conseguiria chegar de uma hora para outra àquele altíssimo nível musical. Impressione-se: ouça seu disco-solo Perpetual Burn e os trabalhos em dupla com Marty Friedman. Escute também o álbum de David Lee Roth A Little Ain’t Enough, que ajudou a levar Becker ao estrelato.

Infelizmente, o destino foi implacável com Jason. Ele foi acometido por uma gravíssima doença neurodegenerativa (esclerose lateral amiotrófica), que, aos poucos, retirou sua habilidade de andar, depois de tocar e, por fim, cessou todos os seus movimentos, mas nunca conseguiu subtrair o brilho de seus olhos e a música que existe dentro dele. Becker ficou impossibilitado de empunhar uma guitarra e subir aos palcos, mas não de continuar nos alimentando com sua música. Ele nos impressiona até hoje com suas obras do passado e com suas composições do presente, escritas por meio do movimento da íris.

Quando buscamos nossa musicalidade de forma tão intensa, podemos alcançar um grau sublime de energia musical – fluida, livre e extravasante – que será parte da nossa essência como pessoa. Jason é o exemplo cristalino disso.

No momento, a loira (Kristin Bloom, namorada de Becker), familiares e muitos fãs seguem fazendo homenagens a ele, como o evento Jason Is Not Dead Yet, o documentário Perpetual Burn: The Story of Jason Becker (www.jasonbeckermovie.com) e, aqui no Brasil, o site www.guitarclinic.com.br, o qual oferece a coletânea Heart of a Hero (organizada por Rafael Nery), que recebe donativos para o tratamento do guitarrista.