22 de julho de 2011

GRAVAÇÕES: RESOLVENDO UMA INCÓGNITA

Tricolor desde criancinha, mas não muito praticante, fiquei orgulhoso de ser convidado para gravar a trilha sonora do documentário sobre o goleiro recordista Rogério Ceni, no estúdio Midas, em São Paulo. Eram cinco músicas curtas que, em uma tarde ao lado de Ricardo Confessori (bateria) e Felipe Andreoli (baixo), gravaríamos como power trio, ao vivo, como nos velhos tempos dos rolos de duas polegadas. Por questões sonoras, estéticas e, claro, pela questão do tempo, não teríamos a possibilidade de muitos overdubs. As músicas compostas pelo maestro Alexandre Guerra vieram todas via e-mail um dia antes da gravação – páginas e páginas de partituras com compassos esdrúxulos e melodias que dançavam entre o simples e o complexo. Para agradar o herói do Morumbi, referências a AC/DC e Dream Theater nos cinco belos temas.

Registrar sua própria música tem uma dinâmica completamente diferente de gravar composições alheias para finalidades diversas. Afinal, nunca se sabe qual o resultado final que o maestro imagina em sua cabeça, ensaios não ocorrem, não se conhecem os técnicos do estúdio e muitas vezes não se sabe a finalidade ou utilização daquela gravação.

Estar preparado para situações como essa é sempre uma incógnita. Como fazer para estar pronto para algo que não se sabe o que é? É como fazer um vestibular: as perguntas estão ali para serem respondidas em um determinado tempo, sem uma segunda oportunidade para, se necessário, mudar a primeira impressão. Pragmatismo puro. Situações como essas exigem um outro lado da nossa musicalidade. Não será o virtuosismo ou a habilidade extrema que conquistará o diretor musical – precisão, eficácia e simplicidade são as palavras de ordem. Executar o que é pedido e o que está na partitura e, aos poucos, colocar o seu toque pessoal é a direção certa para, assim, alcançar uma linguagem acessível e rigorosa ao mesmo tempo.

Nós, guitarristas, temos de estar preparados para esse tipo de trabalho, por mais que não nos preocupemos com ele quando estudamos. Pensar em conhecer um pouco de cada estilo e soar bem em todos eles, mesmo que de forma simples, é o caminho correto. Além disso, a rapidez em criar soluções para os arranjos é fundamental. Sendo assim, a única escola é a experiência, as horas de voo no hermético mundo dos estúdios.

Outra coisa que joga sempre a favor é a gama de sons e timbres que você pode oferecer. Anos atrás, fui tocar em um álbum de Guilherme Arantes e, mesmo sem saber o que gravaria, cheguei com mais de cinco guitarras e violões e amplificadores diversos.

Quanto mais recursos – tanto de timbres como de conhecimento e habilidade musical – você puder proporcionar a um determinado trabalho, melhor. Mas você deve saber como utilizar essas ferramentas em prol da gravação em si, desprender-se de qualquer tipo de vaidade e jogar para a equipe, fazer o que o “técnico” lhe pede. Ao atuar com profissionalismo e preparo, o resultado final terá mais brilho, consistência e, também, o seu toque pessoal, afinal, será um eterno registro de sua persona musical.

12 de julho de 2011