12 de setembro de 2011

A Dúvida


A Dúvida

Ser ou não ser músico? Temos a tendência de pensar que essa dúvida mora apenas em nossa baixa autoestima latino- americana e que, em terras além-mar, ser músico é estar no éden. Como sugestão para esta coluna, recebo constantemente o questionamento de como vencer em nosso país Pindorama com a profissão músico: Vale a pena cursar uma faculdade? Qual é a real perspectiva do mercado de trabalho? É possível se sustentar sendo músico? Além de muitos outros questionamentos relevantes. Porém, não tenho respostas. Para falar a verdade, nessa área, também sou só dúvidas.

Questionar é fundamental. Acredito que seja um ótimo sinal, afinal, a certeza é sempre burra – aprendemos as verdadeiras lições ao questionar e ao errar. Recentemente, um dos maiores ícones pop desde os anos 1980, cujo sucesso pode ser comparado ao de Madonna e Michael Jackson, indicado então por Miles Davis como o futuro da música americana, que trocou sua alcunha por um símbolo meio hermafrodita, tornou-se testemunha de Jeová e, hoje, voltou a usar seu nome original e ainda lota estádios pelo mundo afora, Prince revelou em uma entrevista que anda um pouco confuso com sua profissão de músico. Declarou que não gravará mais enquanto não for regularizada a “terra sem lei” da distribuição e venda de música no mundo. Com razão, ele questiona que o músico não é mais pago pelo seu ofício e quem ganha são as operadoras de celulares, Apple e Google. Já vimos esse filme quando o Metallica tirou o terno do fundo do armário e foi brigar na justiça contra o Napster. Com a perspectiva de hoje, esse fato de poucos anos atrás tem cheiro de naftalina.

A dúvida se é possível viver da música e se somos pagos pelo que achamos que valemos é pertinente, mas também permanente e insolúvel. Assim foi e assim sempre será, pois o quinhão quem leva é a gravadora, o dono do bar, o produtor executivo, o iTunes e quem recolhe o dinheirinho suado dos fãs de música. Para nós sempre ficará o dízimo, e isso não tem nacionalidade, acontece dentro e fora do país.

Pode até não ter solução, mas nunca a criação musical foi abortada por isso. Portanto, vamos deixar nossas vontades falarem mais alto e nos jogar com tudo nessa profissão. Com o tempo, aprendemos os mecanismos burocráticos e menos lúdicos para não deixar a balança ser tão desequilibrada e conquistar o pagamento digno de quem faz seu ofício bem feito.

Como disse Bob Dylan: “Sucesso é levantar de manhã, ir para cama à noite e, no tempo entre os dois, fazer o que gosta”. Então, por que a dúvida?

3 de setembro de 2011

GUITARRISTA TIPO EXPORTAÇÃO - Made in Brazil



GUITARRISTA TIPO EXPORTAÇÃO - Made in Brazil

A música brasileira sempre foi e será prestigiada no mundo inteiro. É um valor adquirido graças aos grandes compositores e artistas da nossa história. Originados da miscelânea cultural que é o Brasil, eles formaram algo original e atrativo, admirado em todos os cantos do planeta.

Ao lado do futebol, a música brasileira é o nosso maior patrimônio. Mesmo que a imagem internacional do Brasil seja maculada pelas nossas mazelas – da senzala às favelas, da polícia aos políticos, e tantos outros problemas –, a música brasileira permanece intacta, surpreendente, rica e versátil, amada por todas as nacionalidades.

Na China, encontra-se uma atmosfera acolhedora, aberta a novas culturas e com a sede de participar das facilidades, do conforto e da tecnologia do nosso lado do planeta. Ao perceber isso, o mundo todo quer hastear sua bandeira para demarcar território e selar um futuro promissor em uma terra na qual quem se posicionar bem colherá os frutos. Aqui na China, é como se não existisse passado, não há referência para com a história do rock ou da guitarra. Uma página em branco para quem quiser escrever. Por exemplo, o encarregado das relações artísticas da maior importadora daqui viu uma guitarra pela primeira vez na vida aos 24 anos de idade e hoje, aos 31, acompanha artistas e participa do marketing de produtos.

Para ele, Jimi Hendrix e John Petrucci têm o mesmo peso histórico. Assim, nós, guitarristas, também podemos nos posicionar perante essa abertura e, com ela, aprender que o mundo é enorme e repleto de oportunidades.

A busca de outros portos sempre esteve à nossa disposição. Tudo é uma questão de atitude. Temos de abrir caminho, ter o posicionamento expansivo que existe desde os tempos de Cabral e Vasco da Gama, mas que acho pouco explorado por nós. Quem se beneficia do nosso legado são os que possuem um som genuinamente considerado brasileiro em eventos da chamada “world music” ou quem toca para brasileiros em terra estrangeira. Não é o suficiente, podemos mais.

Assim como muitas empresas de sucesso no Brasil não abrem os olhos para o mundo, mantendo seus produtos, websites e marketing em português, nós, músicos, também nos restringimos e olhamos apenas para o mercado nacional. Aqui na terra de Confúcio, encontrei russo, francês, alemão e mexicano aproveitando as oportunidades que surgem.

Uma carreira internacional não é privilégio de ninguém, é apenas uma visão mais global do que se faz. É a perspectiva do olhar – se está voltado para fora ou para dentro, se ultrapassa fronteiras e barreiras linguísticas ou não. A nossa música, a original e genuína, já abriu o caminho. Agora, é só uma questão de posicionamento e virtude de cada um.

Na China dos arranha-céus, o sábio chinês de outrora Lao Tsé não parece mais exercer tanta influência com seus provérbios taoístas de desprendimento e introspecção. Muito menos o comunismo de Mao Tsé-Tung. Então, por que esperamos?