7 de março de 2012

Ensinando e Aprendendo - na Europa


Mais um post antigo da Guitar Player


Prometi no blog anterior contar como foi o European Summer Camp, que aconteceu na Itália, em agosto. Cursos intensivos de várias modalidades em lugares com incríveis belezas naturais e festivais gigantescos a céu aberto são sempre as grandes atrações do Velho Continente antes que o sol, que tem data certa para partir, suma de uma vez e a temperatura despenque para o negativo e enclausure as pessoas em suas casas. Há dois anos, participei de um curso de verão com Mattias “IA” Eklundh, à beira de um lago nas florestas vizinhas a Estocolmo, Suécia. Agora, neste verão europeu, ao lado de Allan Holdsworth e Richard Hallebeek, estive no European Summer Camp na Sicília, Itália. Foram quatro dias nos quais cada guitarrista ministrou uma aula de duas horas por dia, totalizando 24 horas de informação intensa.

O cenário escolhido foi o primeiro grande atrativo do curso. Siracusa é uma cidade histórica na ilha da Sicília. Tem cerca de 2.700 anos e já foi uma das cidades mais importantes do Mediterrâneo, fundada pelos gregos e depois tomada pelos romanos. Foi ali que Arquimedes, de dentro da banheira da sua casa, gritou o seu famoso “Eureca!” e saiu correndo nu pelas ruas. Um lugar de arquitetura única, praias paradisíacas às margens do mar Mediterrâneo e sol de 40 graus. Encantos que, felizmente, não foram suficientes para desconcentrar o grupo de guitarristas que lá estiveram – nós nos mantivemos focados inteiramente no que tínhamos a dizer.

Após as, para mim, já tão familiares horas de check-ins, revistas de segurança, voos, escalas e van, cheguei à maravilhosa cidade vindo de Helsinque, Finlândia. Holdsworth e Hallebeek já estavam no hotel à minha espera e fomos direto apreciar a culinária mediterrânea na noite da chegada em Siracusa.

O dia seguinte seria de passagem de som e a primeira aula. Richard, por já ser professor na Universidade de Amsterdã, trouxe um material completo e superdidático. Eu também preparei uma apostila com diversos assuntos, mas que não segui à risca, pois queria deixar a coisa fluir de acordo com o nível dos alunos. O Allan já foi diferente e inusitado. Com suas décadas de experiencia musical, ele sempre foi avesso a ministrar aulas ou cursos. Holdsworth acredita em sua música e quer apenas tocar – não está preocupado em teorizar ou explicar nota por nota o que sai de sua cabeça.

Obviamente, presenciei suas aulas e as conversas ficavam no filosófico e nada muito prático. Ele não tinha playback algum e, convenhamos, falar e responder perguntas sem ter nada preparado ou algo para tocar ao longo de duas horas é muito difícil. Por isso, no segundo dia, Richard e eu fomos convidados por ele para criar algumas atmosferas para ele poder improvisar. Nada planejado. Eu tocava algumas sequencias de acordes, enquanto ele ouvia e derramava seu talento e concepção avançada. Alguns vídeos estão na internet e mostram um pouco desse momento, apesar de ter sido proibido filmar o evento.

No terceiro dia do curso, Allan comemorou seu aniversário de 65 anos e fizemos uma grande festa para ele. Sempre no melhor estilo inglês, de humor sarcástico e impiedoso, Holdsworth zombava da situação, enquanto os alunos e eu, é claro, reverenciávamos o mestre. Foi uma oportunidade única poder comemorar com ele seu aniversário e entrar madrugada adentro trocando ideias musicais e ouvindo frases da voz da experiência.

O quarto e último dia teve mais aulas, a entrega de diplomas e despedidas. Foram momentos intensos, nos quais fui para ensinar e acabei aprendendo muito. Com o tempo e a maturidade, percebemos cada vez mais que é a convivência com outros músicos que nos mostra como eles tocam. Explicações de como compõem ou por que tocam determinadas escalas, frases e ritmos ou por que aplicam certos conceitos musicais em seus trabalhos, isso tudo nem sempre é possível colocar em apostilas. Tudo está explicado na forma como a pessoa age nas situações diversas da vida, no seu jeito de ser, falar e interagir com as pessoas. Somos o que tocamos, tocamos o que somos.

3 comentários:

Júlio Sampaio Neto disse...

Cara, bem que eu queria ter sorte e dinheiro pra pode ter pelo menos 15 minutos de aula com pelo menos um de vcs...
Diferente da maioria de guitarristas que começaram a fazer sucesso agora e ja se sentem estrelas nem ligando pros fãs...
eu gosto muito do seu blog, pois é uma ponte de transmissão de informaçôes Idolo-fã que eu acho que fata nos musicos de hoje em dia!
Parabéns

Felipe Januario disse...

Deve ter sido uma experiência incrível, para mim isso ainda está nos planos e sonhos, quem sabe um dia...

Kiko parabéns pelo seu trabalho, são pessoas como você que fazem toda uma diferença na vida de outras.

Felipe Januario disse...

Parabéns cara, você merece...

Um abraço!