16 de agosto de 2012

A ARTE E A CIÊNCIA EXATA


A ARTE E A CIÊNCIA EXATA
Criar, compor e desenvolver um trabalho na exata forma que reflita como queremos nos apresentar como artistas é, com certeza, a parte mais demorada e trabalhosa da idealização e produção de um novo álbum. A gravação propriamente dita de todos os instrumentos não é menos árdua e também demanda intensa dedicação, ainda mais em um processo solitário, já que se trata de um álbum de guitarra instrumental, sem a companhia dos colegas de banda. No entanto, ela toma muito menos tempo do que a etapa criativa.
Nesta vida digital moderna, em que temos a condição de criar uma maquete do que virá a ser o álbum, ou seja, uma demo sofisticada que soa praticamente finalizada – com todas as baterias programadas, teclados, melodias e solos feitos no computador –, surge uma não esperada dificuldade quando é chegada a hora crucial de registrar definitivamente a obra: a insolúvel questão de como reproduzir o momento tão especial da criação de uma arte, instante puramente intuitivo do desenvolvimento de uma composição, que havia sido registrada em forma de demo sem maiores pretensões técnicas, somente com intenções artísticas.
 Devido às perfeitas condições de um bom estúdio, aparece a sensação de obrigatoriedade de que a música deva ficar ainda melhor, como se a tecnologia pudesse se sobrepor à criatividade. Essa etapa é curiosa, pois a demo, muitas vezes, soa melhor que o próprio álbum, no sentido de transmitir algo mais cativante, mais emocionante. Lembro-me dessa discussão ao registrar Angels Cry, do Angra, primeiro álbum da minha carreira. Em meio às gravações, nosso empresário ficou reticente por achar que a simples demo feita no Brasil tinha mais alma do que os registros que fazíamos naquele estúdio custoso, rodeado de tecnologia alemã de ponta.

As condições caseiras e sem esmero carregam a magia da criação, aquele momento de inspiração que aparece intermitentemente, nada fácil de reproduzir a qualquer hora. Ela traz em si o dia, a semana, o instante em que a energia estava totalmente focada na música, e nem tanto na performance ou nas técnicas de gravação. No estúdio, o dilema aparece: como reproduzir aquele momento incrível que fez com que a composição surgisse, mas de uma forma que, ao mesmo tempo, soe melhor, mais bem executado, mais limpo e claro, com total cuidado com os timbres, instrumentos e todas as inúmeras possibilidades que um estúdio profissional oferece. Talvez aí esteja a pedra no caminho. 

Quanto mais esmero e polimento, menos sentimento e alma. Apesar dos anos de experiência e de já ter gravado inúmeras vezes, encontrar o equilíbrio entre o polimento artificial e o verdadeiro é sempre angustiante e muito difícil. Diante das ferramentas digitais, fica fácil gravar de novo, corrigir somente mais uma notinha, deixar este ou aquele bend perfeitamente afinado, colocar no grid os atrasos ou afobações e assim por diante. São as imperfeições humanas que fazem com que a arte seja chamada de arte, enquanto a engenharia de estúdio, que elimina essas imperfeições, não passa de ciência exata.

6 comentários:

HUDSON VIANA PERES disse...

GRANDE KIKO LOUREIRO,OBRIGADO POR COMPARTILHAR TANTAS EXPERIÊNCIAS DE VIDA MUSICAL VOCÊ É DEMAIS CARA!

HUDSON VIANA PERES disse...

BELÍSSIMAS PALAVRAS DE GÊNIO!

Marcelo França disse...

Muito verdadeiro. Acredito que isso serve tanto para os instrumentos quanto para a voz. É claro que uma correção ou outra no estúdio não faz mal e pode até ser necessária, porém hoje em dia as pessoas tendem a 'artificializar' quase totalmente a voz usando recursos digitais como o Autotune, coisa que nem Angra nem Almah nunca fizeram :)

Vitor Ourique disse...

É verdade!Uma tarefa desafiadora a todo instante.Que a recompensa não é nos aplaudes e euforia somente,mas dentro do coração daquele que ama essa arte que se chama música.:-)

Vitor Ourique disse...

verdade!É um universo prazeroso,mas desafiador a tdo instante.
Alegria não fica somente nos aplaudes e a euforia dos ouvintes,mas no coração de quem ama essa bela vida de
tocar e cantar.:-)

Andrews disse...

"São as imperfeições humanas que fazem com que a arte seja chamada de arte".

Simplesmente perfeito. Transcreveu aquilo que eu sentia de uma forma que nunca consegui.

Você é um verdadeiro artista Kiko!