12 de agosto de 2012

Persona Musical



PERSONA MUSICAL
É sempre difícil decidir a hora de gravar um novo álbum. Compor é algo compulsivo, um exercício diário em que, na maioria das vezes, com o instrumento em mãos, alguma ideia surge do nada. Não brota com a perspectiva de ser fantástica, de ser inovadora nem nada, isso é o que menos importa. Ela tem de representar uma sensação de realização e ser naturalmente agradável para aquele instante, puro deleite momentâneo. A questão é, com esse material em mãos, saber colher, selecionar, apurar, garimpar entre as próprias criações algo que represente a sua personalidade.
Um álbum não pode ser feito com uma coleção de ideias esparsas, nascidas aleatoriamente, coladas sem um conceito estabelecido. Um disco deve representar como você quer ser visto, ouvido e apreciado, representar o artista que deseja ser. Nem todas as ideias que aparecem participam desse estado, pois nascem sem compromisso. As criações devem fazer parte de um mesmo caminho sonoro, um mesmo ideal musical, e ser uma busca interna constante em todo artista. Uma viagem musical devidamente registrada em formato de álbum, que será promovida e vendida, ou seja, dividida com outras pessoas, tem a capacidade de trazer à tona as mais diversas dúvidas, receios e porquês enquanto músico e identidade. Porém, ser um artista é ser, por excelência, convencido o suficiente para acreditar que existe público para a arte que deseja apresentar, é ter o ego suficientemente inflado para perder a timidez natural do ser humano e enfrentar um palco e, inclusive, achar que é importante o bastante para mostrar ao mundo a sua arte.
Diferentemente de uma banda ou um artista mainstream, que possuem seus sentimentos e criações misturados com as obrigatoriedades do mercado fonográfico e suas fórmulas, um álbum instrumental de guitarra não possui limites ou barreiras. O propósito de um projeto solo é uma busca egoísta, cuja única função, no processo embrionário das composições, é a relação íntima com os próprios sentimentos. Quando chegada a hora de partilhar as ideias com os outros músicos e o produtor, as composições perdem essa função autocrática e adquirem uma forma mais colaborativa até alcançarem a plena condição democrática em que o público pode ouvir, comentar, criticar, cantar e tocar suas ideias outrora tão íntimas e descompromissadas.
Tendo consciência de tudo isso, a melhor opção de formatar um álbum, quando diante das prateleiras virtuais de arquivos e mais arquivos de músicas completas, riffs e melodias fragmentadas, é escolher as mais recentes e aquelas que ainda reflitam seus sentimentos e sua visão musical do momento. Não me refiro a estética ou estilo, mas, sim, a melodias, intervalos, tonalidades que consomem o cérebro diariamente ao aparecerem repetitivamente em uma forma tão bela que chega até a incomodar.
Saber reconhecer esses sinais e deixá-los fluir é muito importante para criar uma relação de você com você mesmo, de acreditar nos seus sentimentos mais internos e, por consequência, acreditar na sua música. Esses são os alicerces de sua persona musical e os arranjos e produção vêm muito depois desse estágio.
Nós carregamos música dentro de nós, que vem sendo selecionada de acordo com essa persona desde o colo materno. Assim, os sons sedimentados do passado com os do presente emergem e representam o que somos. Estou começando a gravar meu novo álbum solo e vou relatar as etapas nesta coluna. A primeira já foi: compor e criar os arranjos para partilhar com o baterista Virgil Donati e o baixista Felipe Andreoli.



3 comentários:

rockmeon disse...

Gostei muito do texto, comigo acontece algo parecido quando desenho. Mostrar ao mundo requer coragem, vencer a timidez acho que é a parte mais complicada. Vocês escreve muito bem, Kiko Loureiro, além de ser um músico incrível, demonstra ter um nível cultural e uma percepção muito intensa do mundo. Ainda não ouvi o álbum novo, pretendo pegá-lo na Expomusic 2012. Bom, é isso. Se tiver paciência e quiser ver alguns desenhos meus, digite Rock Me ON no Google. Em um de meus posts falei do show do Angra em Suzano, no ano passado. Senti sua falta por lá, viu? Marcelo Barbosa toca muito, mas todos esperam ver o Kiko em ação! Bjs, Priss Guerrero

Fairy Tales disse...

Gracias Kiko, ayer en Montevideo esperaba que alguien preguntara sobre lo que comentas aca, ya tengo mis respuestas :D
un placer conocerte ;)

Fairy Tales disse...

Gracias Kiko, ayer en la clinica en Montevideo me hubiera gustado que alguien preguntara sobre algunos detalles de los que comentas aqui en tu blog; asi que bueno mis preguntas ya estaban contestadas y solo me hacia falta leerlas :D
fue un placer conocerte, saludos desde Montevideo.-