4 de abril de 2012

QUANDO A MÚSICA VENCE


QUANDO A MÚSICA VENCE

Às margens dos famosos canais da cidade de Amsterdã, na Holanda, uma noite de extravagância guitarrística em homenagem ao ícone Jason Becker aconteceu no mês de novembro passado. O festival com um nome de gosto duvidoso, Jason Becker Is Not Dead Yet (em português: Jason Becker não está morto ainda), foi criado com a função de angariar fundos e colaborar com Jason e o movimento de apoio aos portadores de ELA (esclerose lateral amiotrófica). Foi a versão europeia do festival que ocorreu no início do ano em Hollywood, Estados Unidos, que contou com a presença de Joe Satriani, Greg Howe e outros ícones da guitarra. Desta vez, 13 guitarristas – 11 europeus, o norte-americano Micheal Lee Firkins e eu – apresentaram seu respeito e admiração por Jason em cinco horas consecutivas de músicas e performances exuberantes.

Os ensaios começaram dois dias antes do evento. O baterista Atma Anur, que gravou os discos de Becker nos anos 1980, e o baixista Stu Hamm prontamente se colocaram à disposição para aprender as mais de 35 músicas de todos os guitarristas presentes. Isso mesmo, todas as músicas! Complicadas, ricas, cheias de partes, de diferentes estilos e do trabalho individual de cada um – somaram-se ainda algumas das canções mais representativas de Jason. Um profissionalismo impressionante de Anur e Stu, que só puderam experimentar e praticar cada música apenas uma vez ao longo das quase 30 horas de ensaio em dois dias. Os lendários músicos aprenderam com perfeição as minhas músicas, como Enfermo, Pau-de-Arara e Escaping, que são longas e possuem estrutura com muitas partes. Como o próprio Stu disse: se aceitou o convite, tem de aprender, pois não existe meio caminho – toca-se a música ou não e, como não existe a opção de não tocá-las, resta apenas aprendê-las nota por nota. Atma Anur e Stu Hamm escreveram o mapa e a partitura de cada tema e brilharam na noite.

Cheguei a Amsterdam na véspera do evento, junto com Micheal Lee Firkins, Mattias Eklundh e Guthrie Govan. Nós quatro formamos o grupo final do evento. Aconselho conhecer o trabalho desses guitarristas fantásticos, caso os nomes deles não estejam em sua memória. Firkins, por exemplo, apareceu com um estilo peculiar na década de 1990. Ele utilizava a alavanca para emular frases de bottleneck, misturada com tapping e técnicas modernas. Mattias já foi capa da GP brasileira e esteve na Expomusic 2011, onde mostrou sua inventividade e harmônicos que soam como um pedal Whammy. Guthrie Govan é impressionante, de um bom gosto para lá de inspirador, além de sua precisão, conhecimento e técnica. Outros guitarristas excepcionais participaram do evento, como Marco Sfogli, que toca com James LaBrie (Dream Theater), Stephan Forté (banda Adagio).

Encontro de guitarristas desse porte é sempre um incentivo. A sensação é de amizade e cumplicidade pelo fato de dividirmos uma história de vida e dedicação à guitarra e, claro, um sentimento de apreço, respeito e compaixão por Jason Becker, que acompanhou cada minuto do festival via Skype, devido à impossibilidade de ele viajar.

Apesar da saúde de Jason, a sua arte permanece forte dentro de todos que estavam naquela noite e de tantos fãs pelo mundo. O prodígio, que teve sua bela história de vida ceifada por uma fatalidade, continua a nos inspirar, motivar, unir e criar. Exemplo de quando o homem e sua arte vencem.