7 de maio de 2012

Queda Livre



QUEDA LIVRE ( Guitar Player Fevereiro 2012)

Liberdade de expressão. Nós não nos damos conta, mas esquecemos esse termo na maioria das vezes em que tocamos. Não exercitamos suficientemente nossas reações criativas e reflexos musicais, com a finalidade de alcançar algo surpreendente e inédito para nós mesmos a cada vez que tocamos. Estamos sempre a emular este ou aquele guitarrista, tocar músicas dos outros e caminhar dentro da trilha demarcada previamente por algum pioneiro, perdendo assim o senso puro do que é o improviso e caindo constantemente na tentação de repetir fórmulas prontas.
Com certeza, é fundamental aprender caminhos, atalhos, ferramentas sonoras e o que for preciso para entendermos a construção complexa de uma música, um solo, melodia ou sequência harmônica. Porém, o sentimento satisfatório da criação esconde-se, definha e fica posto de lado à mercê do preestabelecido e do medo do risco. A liberdade, assim, não é tolhida por terceiros, mas por nós mesmos, que a cerceamos ou suprimimos.
No final de 2011, fui convidado para tocar em duo com o lendário multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo, no Guitar Player/IG&T Festival, em São Paulo. Brasileiríssimo, Arismar é o símbolo da real liberdade de expressão. Personifica a palavra improviso e relaciona-se com o mundo, com as pessoas e com a música dessa forma. Autêntico, singular, generoso e, para nossa sorte, músico, ele imprime essa personalidade cativante em suas melodias, seus acordes (e que acordes!) e sua forma de se expressar – é a espontaneidade em pessoa.
Já conhecendo o Arismar, preparei-me para o evento da única forma com que eu obteria resultados, ou seja, não planejei nem preparei nada e parti com o espírito do “seja o que Deus quiser”. Sabendo que um dos seus acordes poderia me jogar para a lona, assimilei os fatores liberdade de expressão, amizade e diversão para fazer com que, qualquer que fosse caminho seguido, a música fluísse com beleza e naturalidade
Marcamos um encontro antecipadamente para definir como seria esse show de uma hora, o que, obviamente, não foi um ensaio, mas, sim, um belo jantar entre amigos. Dentre tantos assuntos, definimos os andamentos, tons e situações harmônicas que serviriam de guia no início de cada tema. Corcovado destoou da lista, afinal, é sempre bom tocar um standard, com começo, meio e fim. Porém, salvo a apresentação da melodia, os ritmos passearam pela costa brasileira antes de aterrissar na bossa nova do Cristo Redentor.
A proposição de tocar o desconhecido deveria ser mais presente entre nós – tocar entre amigos e deixar a música fluir para onde ela mandar. Obviamente, é necessário um mínimo de vocabulário e bagagem musical, mas o principal é o espírito de desprendimento com regras e fórmulas e estar pronto para, em queda livre e vendado, ser levado para onde os ouvidos conduzirem.
Não tenho ideia do que o público, que provavelmente tinha outra expectativa do que eu apresentaria naquela noite, sentiu ao ouvir tal liberdade de expressão, mas tenho certeza de que a espontaneidade, o sorriso e a alegria de dois músicos totalmente à vontade, fazendo o que mais gostam em cima de um palco, devem ter cativado qualquer um ali presente.