QUEDA
LIVRE ( Guitar Player Fevereiro 2012)
Liberdade
de expressão. Nós não nos damos conta, mas esquecemos esse termo
na maioria das vezes em que tocamos. Não exercitamos suficientemente
nossas reações criativas e reflexos musicais, com a finalidade de
alcançar algo surpreendente e inédito para nós mesmos a cada vez
que tocamos. Estamos sempre a emular este ou aquele guitarrista,
tocar músicas dos outros e caminhar dentro da trilha demarcada
previamente por algum pioneiro, perdendo assim o senso puro do que é
o improviso e caindo constantemente na tentação de repetir fórmulas
prontas.
Com
certeza, é fundamental aprender caminhos, atalhos, ferramentas
sonoras e o que for preciso para entendermos a construção complexa
de uma música, um solo, melodia ou sequência harmônica. Porém, o
sentimento satisfatório da criação esconde-se, definha e fica
posto de lado à mercê do preestabelecido e do medo do risco. A
liberdade, assim, não é tolhida por terceiros, mas por nós mesmos,
que a cerceamos ou suprimimos.
No
final de 2011, fui convidado para tocar em duo com o lendário
multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo, no Guitar
Player/IG&T Festival, em São Paulo. Brasileiríssimo, Arismar é
o símbolo da real liberdade de expressão. Personifica a palavra
improviso e relaciona-se com o mundo, com as pessoas e com a música
dessa forma. Autêntico, singular, generoso e, para nossa sorte,
músico, ele imprime essa personalidade cativante em suas melodias,
seus acordes (e que acordes!) e sua forma de se expressar – é a
espontaneidade em pessoa.
Já
conhecendo o Arismar, preparei-me para o evento da única forma com
que eu obteria resultados, ou seja, não planejei nem preparei nada e
parti com o espírito do “seja o que Deus quiser”. Sabendo que um
dos seus acordes poderia me jogar para a lona, assimilei os fatores
liberdade de expressão, amizade e diversão para fazer com que,
qualquer que fosse caminho seguido, a música fluísse com beleza e
naturalidade
Marcamos
um encontro antecipadamente para definir como seria esse show de uma
hora, o que, obviamente, não foi um ensaio, mas, sim, um belo jantar
entre amigos. Dentre tantos assuntos, definimos os andamentos, tons e
situações harmônicas que serviriam de guia no início de cada
tema. Corcovado
destoou da lista, afinal, é sempre bom tocar um standard, com
começo, meio e fim. Porém, salvo a apresentação da melodia, os
ritmos passearam pela costa brasileira antes de aterrissar na bossa
nova do Cristo Redentor.
A
proposição de tocar o desconhecido deveria ser mais presente entre
nós – tocar entre amigos e deixar a música fluir para onde ela
mandar. Obviamente, é necessário um mínimo de vocabulário e
bagagem musical, mas o principal é o espírito de desprendimento com
regras e fórmulas e estar pronto para, em queda livre e vendado, ser
levado para onde os ouvidos conduzirem.
Não
tenho ideia do que o público, que provavelmente tinha outra
expectativa do que eu apresentaria naquela noite, sentiu ao ouvir tal
liberdade de expressão, mas tenho certeza de que a espontaneidade, o
sorriso e a alegria de dois músicos totalmente à vontade, fazendo o
que mais gostam em cima de um palco, devem ter cativado qualquer um
ali presente.




