23 de dezembro de 2012

Os Limites do Branding. Guitar Player

 Os Limites do Branding


Os adversos aos estrangeirismos habituais que me perdoem, mas é difícil evitar: branding,marketing e advertising. Mestres no assunto, os norte-americanos devidamente impõem a terminologia que acatamos mas que nem sempre compreendemos bem. Seja uma marca gigante como Coca –Cola, ou mesmo nós guitarristas que almejamos uma carreira sólida devemos entender e utilizar estes conceitos.
O tópico deste blog me veio à cabeça quando vi a capa do novo álbum da cantora e pianista de jazz Diana Krall em um folheto de uma loja de departamentos sofisticada. Eu nem ouvi a música e nem sei o conceito do álbum, porém tive uma sensação estranha ao ver a capa. Com o “advertising” ali na minha frente, que deve fazer parte de uma campanha de “marketing” avassaladora da gravadora, ao meu ver, o “branding" deixou a desejar.
Longe de ser um perito no assunto, enxergo-o de forma leiga e simplificada, mas como minha avó já dizia: "Propaganda é a alma do negócio". Sei da importância e do cuidado que temos que ter em relação a estas três fundamentais palavrinhas da vida moderna.
Quando nos lançamos como artistas, somos o “brand” e criar a estratégia de valorização da própria marca, o chamado “branding, é fundamental. É basicamente desenvolver os aspectos de como as pessoas irão te ver, sentir e se conectar contigo. É o intangível que nos faz amar uma marca, comprar um produto e, no nosso caso, gostar, admirar e respeitar um artista.
É o encontro do que achamos que somos com o que os outros pensam que somos.
Depois de analisar isso, pode-se desenvolver uma imagem, logos, cores, atitude, forma de falar, de escrever, de se apresentar, de se expor na internet dentre outras coisas. Isso é o que constrói a relação com o público que você quer atingir. Transmitir algo que somos de maneira sustentada, consistente, adaptando-se às mudanças pessoais, e respeitando a forma de como queremos ser visto pelo público: eis a forma de estruturar o próprio branding
É recorrente no “music business” que alguns artistas tenham o ímpeto de ganhar novos públicos, novos mercados, fazer o “crossover” ( desculpem-me mais uma vez os Policarpos Quaresmas de plantão), isto é, cruzar a linha do seu nicho e alcançar novos admiradores.Bom quando é de forma analítica da marca , mas quando enxergam no sucesso “o céu é o limite”, podem perder-se no meio do caminho com atitudes que desagrade os fãs de carteirinha. É sempre um passo delicado e perigoso.

Agora é esperar para ver se a Diana será indicada mais uma vez ao Grammy como musicista de Jazz com seu visual de moça de Lupanário do Faroeste ou quem sabe o próximo passo será entrar no palco dançando estilo Beyoncé em um estádio lotado.

6 de dezembro de 2012

IronMan Tour


IRONMAN TOUR
Lembro-me que, desde pequeno, o pensamento coletivo de uma ignorante e falsa superioridade dos brasileiros para com os “hermanos sudamericanos”, simbolizado pela frase “la garantia soy yo”, esteve presente e imprimiu um olhar equivocado sobre os nossos vizinhos. Viajo há muitos anos por países da América Latina e faz tempo que perdi essa imagem difusa e, digamos, preconceituosa.
18 dias,15 apresentações. A rota foi Santiago (Chile), Lima (Peru), La Paz (Bolívia), Curitiba, Porto Alegre, Montevidéu (Uruguai), Buenos Aires ( Argentina), Brasília, São Paulo (EM&T), São Paulo (Stay Heavy), Medellín (Colômbia), Cidade da Guatemala (Guatemala), Manágua (Nicarágua), San José (Costa Rica) e Cidade do Panamá (Panamá).
IronMan foi o termo escolhido para nomear a turnê que testou ao limite minha capacidade de estar inteiro e bem disposto para cada apresentação, após noites sem dormir, voos intermináveis e irritantes filas de check-in.
Mucho Gusto”, “Bienvenido”, “Gracias, maestro” foram as palavras recorrentes nesta tour-de-force latino-americana, na qual fui tratado com muita simpatia, amizade e respeito. Temos muito a aprender com essas culturas vizinhas. Países que carregam uma história sociopolítica similar à do Brasil e sofreram com uma economia titubeante. Porém, agora, alguns deles resplandecem e mostram traços de qualidade de vida melhores que os nossos – nós é que estamos deitados eternamente em berço esplendido.
O frio seco do Chile umedecido pela Piscola, o refrigerante peruano Inca Kola (com sua cor amarela radiante e sabor xarope), o marear da altitude de 4.200 metros da Bolívia, beijo com barba áspera dos fãs argentinos, o chimarrão compartilhado pelos uruguaios, as “Shakiras” da Colômbia, a cultura maia da Guatemala, a propina “voluntária” da Nicarágua, a pura vida na Costa Rica, a quase Miami centro-americana do Panamá e, por fim, a inigualável sensação de viajar e tocar para os amigos no Brasil.
São dias que equivalem a meses. Viver intensamente e aproveitar cada novidade e descoberta. Melhor ainda, poder se apresentar todos os dias para pessoas e culturas diferentes.
Escrevo este texto na última noite da turnê, no Panamá, com céu estrelado e vista para o famoso canal. Sinto-me contente por ter levado minha música a todos esses cantos e para tantas pessoas. Como Machado de Assis escreveu: “As estrelas pareciam-lhe outras tantas notas musicais fixadas no céu à espera que alguém as fosse descolar; tempo viria em que o céu tinha de ficar vazio, mas então a terra seria uma constelação de partituras.”

3 de dezembro de 2012

Na Terra Do Sol Nascente


NA TERRA DO SOL NASCENTE
No outro lado do mundo, tão distante e diverso, está um lugar onde é possível sentir-se em casa, à vontade e querido. O Japão nos dá essa sensação de familiaridade e identificação, pelo menos para quem cresceu em São Paulo, em meio a viadutos, túneis, grandes avenidas e ao lado de tantos nisseis e sanseis. Em julho deste ano, tive o privilégio de realizar dois shows no Japão, em Tóquio e Osaka, além de entrevistas e promoções para o meu novo álbum, Sounds of Innocence.
Desta vez foi um pouco diferente das inúmeras outras ocasiões em que estive lá com o Angra ou para workshops. Foi minha primeira experiência como artista solo e isso deu um caráter para lá de especial e desafiador. O público japonês tem uma dedicação sem igual para com os artistas que amam, porém, para consegui-la, é necessário mostrar um trabalho que se alinhe à qualidade e perfeccionismo que imperam no dia a dia desse país. Tarefa nada fácil.
Com Felipe Andreoli no baixo e Marcelo Moreira na bateria, passamos por uma semana intensa de atividades, ótimos momentos musicais e inusitados choques culturais. A ansiedade de mostrar um trabalho inédito no Japão e a expectativa do público, que esgotou os ingressos meses antes da apresentação, serviram como impulso incrível para os ensaios e shows preparatórios que realizamos antes no Brasil.
Após a viagem interminável de meia volta no planeta, o primeiro dia em Osaka, ainda em adaptação ao fuso, serviu apenas para lutar até o limite contra a força natural do sono. Perambulei pela cidade de um calor e umidade amazônicos em um estado de zumbi sonâmbulo. No segundo dia, realizamos um ensaio e reunião com o diretor de palco para afinar os detalhes de equipamento, som e luz. Cada ponto foi passado antecipadamente para não haver surpresas desagradáveis no dia do show. No terceiro dia, data da primeira apresentação, com a energia reposta pelo tradicional Okonomiyaki, que nada mais é que um omelete com tempero japonês, fomos para a casa de show ajeitar o terreno para a estreia.
Cronograma seguido religiosamente, no qual tudo funciona de tal forma que dá vontade de querer tocar para sempre no mesmo lugar, como num sonho em eco. O que mais diferencia o Japão de outros países, além da qualidade técnica e precisão da produção, é a reação do público. Com um respeito sem igual com a música, a plateia vibra conforme a dinâmica mostrada no palco. Entregam-se e interagem com as músicas mais agitadas ou pesadas, mas, quando levei um violão de cordas de náilon ao palco para apresentar músicas do álbum Universo Inverso, o silêncio foi de sala de concerto – eu ouvia somente meu violão e minha respiração. O mesmo acontece antes do show: um silêncio profundo, como se a casa estivesse abandonada, mesmo repleta de japoneses à espera do espetáculo. Sem câmeras ou celulares durante a apresentação, todos respeitam o sinal de proibido filmar ou tirar fotos – nada é preciso pedir duas vezes. Algo surreal para nós, brasileiros.
No quarto dia, pegamos um trem bala e fomos direto a Tóquio, para um longo do dia de entrevistas que terminou em um nada convencional restaurante de sashimi de frango. No dia seguinte, data do show de Tóquio, de manhã cedo fui gravar vídeos para o DVD da revista Young Guitar. Eles levam a sério o termo “guitar hero” e imaginam que é possível tocar as partes mais difíceis do álbum em um primeiro take sem aquecer. Tudo é muito rápido e sem tempo para tentar mais uma – é o famoso “Deus nos acuda”.
O show de Tóquio, com ingressos esgotados, foi uma experiência fantástica e, logo depois, fizemos ainda uma sessão de autógrafos para mais de 200 pessoas. Dia de trabalho árduo e sem descanso, bem no estilo japonês do “carpe diem”.
Acordar cedo no domingo, dia após o show, para mais atividades intensas é algo normal na Terra do Sol Nascente. Mais entrevistas para a Young Guitar, pois sempre querem saber de tudo nos mínimos detalhes, sessões de foto e um workshop para uma seleta plateia.
O feriado nacional no dia seguinte não impediu mais uma enxurrada de atividades promocionais do meu novo disco. O descanso só viria mesmo dentro do avião, já com saudades e distante desse povo de coração limpo. Japão é um lugar sempre desafiador e estimulante. Saí de lá tendo a certeza de que fazer música é a melhor profissão que existe.